Categorias: Notas

Artigo saído no JH1ªEdição

Uma reação democrática à reeleição

MIRANDA SÁ, jornalista (mirandasa@uol.com.br)

O caso hondurenho nos faz refletir sobre as reeleições – algumas eternizadas – dos governos populistas da América Latina. Seria preciso muito espaço para a gente relatar e discutir os acontecimentos naquele país caribenho, mas, resumindo, tentaremos esclarecer o que ocorreu e ainda se estende.

Manuel “Mel” Zelaya Gonzalez é um típico político daquilo que os analistas chamavam de repúblicas bananas. Oligarca de origem, empresário agro-industrial, foi eleito pelo Partido Liberal, representante do conservadorismo agrário.

Tomando posse, executou a política tradicional do país que já foi chamado de “porta-aviões” dos yankees”. A referência jocosa atesta o apoio irrestrito de Honduras aos EUA, fosse o governo do Partido Nacional ou do Partido Liberal, ambos ideologicamente de direita.

Faltando 6 meses para as novas eleições presidenciais, Zelaya aproximou-se do coronel Chávez, tomou algumas medidas populistas (inclusive uma “bolsa família”) e tentou ter suporte parlamentar para aprovar o instituto da reeleição.

Negada a pretensão, propôs a convocação de um plebiscito sobre a medida, que foi obstaculizada pela Corte Suprema. Sem receber a aprovação dos dois poderes republicanos, Zelaya insistiu em manter a convocação da consulta popular, atropelando o Legislativo e o Judiciário.

As ações de governo e a mobilização de grupos de pressão oficiosos tipificaram uma posição anti-democrática para prolongar o seu mandato. Voltou-se para as forças armadas, que se recusaram apóia-lo. Enfim, contrariando o Parlamento e a Justiça, Zelaya destituiu o comandante militar e iniciou um processo golpista.

Reagindo, a Corte Suprema –  interpretando a Constituição Hondurenha – condenou o plebiscito, que considerou ilegal, e mandou prender o Presidente por ferir os princípios constitucionais.  Zelaya ainda tentou se reconciliar com os chefes militares mas foi tarde demais.

Como não há a figura constitucional do processo de impeachment em Honduras, essa lacuna levou as forças armadas a assumirem uma posição extrema, arbitrária mas baseada em princípios jurídicos e políticos. Assim Zelaya foi preso e expatriado.

Com golpe dos dois lados, Honduras e o povo hondurenho sofrem um hiato no processo democrático e um desvio no caminho da independência política e econômica. Tudo por causa da ambição de um homem e os exemplos desonestos das ditaduras populistas implantadas em nome da democracia…

Diante desta primeira reação democrática à reeleição, vou aos arquivos da imprensa norte-riograndense provando que sempre fui contra a reeleição. Lutei contra a safadeza praticada por Fernando Henrique e os partidos que lhe apoiavam, estando certo que mandatos consequentes representam a matriz da corrupção burocrática.

Assumo uma posição oposta aos que querem se manter no poder, seja nos clubes, sindicatos, entidades estudantis ou profissionais. O continuísmo é nefasto sempre; seja dos tucanos ou dos petistas. Somente as ditaduras fascistas e a distorção stalinista do socialismo – de péssimos exemplos, justificaram a manutenção no poder de um homem ou um grupo, graças a mandatos consecutivos.

A reeleição é imoral. Quando o povo brasileiro se manifestou a favor da República, condenou, entre outros privilégios, o instituto da continuidade do poder, mesmo através de sucessivas eleições.  Que atentem para isso os congressistas, a magistratura e os militares patriotas.

Miranda Sá

Compartilhar
Publicado por
Miranda Sá

Textos Recentes

Razão.com

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A palavra "Razão" como verbete dicionarizado é um substantivo feminino com a etimologia vinda do grego…

3 de setembro de 2026 19h31

DOS HERÓIS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A minha profunda admiração pela figura de Bertolt Brecht, dramaturgo, filósofo e poeta alemão, o maior…

29 de agosto de 2026 21h54

DAS TRAGÉDIAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A Tragédia é um acontecimento muito grave e ruinoso, ligado a forças da natureza ou provocado…

26 de agosto de 2026 8h42

DO JORNALISMO

MIRANDA SÁ (E-mail; mirandasa@uol.com.br) O analfabetismo reinante na suprema corte de Justiça argumenta sobre o exercício do jornalismo para se…

19 de agosto de 2026 18h20

DAS VIGARICES

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A expressão "conto do vigário" é uma das mais tradicionais da língua portuguesa e significa um…

10 de agosto de 2026 17h34

ETCETERA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A casa da minha avó Quininha, mãe de minha mãe, era senhorial; tinha seis quartos, três…

5 de agosto de 2026 8h15