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Artigo saído n’ O METROPOLITANO. Nas bancas.

Mexendo a canjica das relações internacionais

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br


Na minha saga de velho profissional de imprensa, evito sempre meter a colher em assuntos locais – que precisam ser analisados com independência e isenção – e também na política internacional, cuja informação (perdoem-me as agências de notícias) nos chega totalmente distorcida. Resta-me, portanto, escrever sobre a conjuntura nacional, assumindo a atitude oposicionista que é uma tarefa histórica dos jornalistas.

Como toda regra tem exceções, de vez em quando sinto a necessidade de intervir em questões supranacionais. Se tivesse tempo de estudar mais as implicações internas da economia norte-americana, procuraria descrever os riscos do capitalismo, e suas crises periódicas. Ainda me vem à lembrança a grande discussão sobre a recessão que promoveu o crack de 1929 e suas seqüelas a nível mundial.

Mesmo assim não aceito passivamente as palavras tranqüilizadoras de Lula da Silva e do seu ministro de luz baixa, Guido Mantega. Nenhum dos dois merece crédito e o FMI – monitor desses neo-neoliberais entra em contradição com o otimismo exagerado deles.

Tirando o corpo fora de um assunto de banqueiros, financistas e agiotas, meu impulso internacionalista leva-me a olhar para a América do Sul e as nuvens negras da guerra que cobriram o subcontinente. Primeiro, porque conheço relativamente bem a geopolítica regional e, segundo, por discordar do modo de proceder ambivalente e inseguro do PT-governo.

Creio inadmissível o silêncio em torno das ações criminosas das FARC. Está na Bíblia que a mulher de Loth olhou para trás e virou uma estátua de sal; é assim que faz o PT-governo, vendo as FARC como o movimento revolucionário sociológico, antifeudal e anti-oligárquico surgido 50 anos atrás. Não acompanhou sua evolução degenerescente, a prática de ataques terroristas, seqüestros e, pior que tudo, uma criminosa associação com o narcotráfico.

Nenhum teórico revolucionário aceitou o princípio jesuíta dos fins justificarem os meios. Somente os restos esmolambados da intelectualidade que fundou o PT-partido admitem isto e fecham os olhos para o acolhimento que os governos equatoriano e venezuelano dão aos bandoleiros colombianos que agem sob a bandeira das antigas FARC. Não é possível que sejam criados santuários fora da Colômbia para a narco-revolução.

Não se pode, também, jogar com dois pesos e duas medidas. Que a invasão do Equador é condenável, teoricamente é; entretanto a autodefesa e a ação preventiva em defesa da vida são consagradas em todos os códigos do mundo. Segundo: se o exército colombiano quando atravessou as fronteiras equatorianas merece repreensão, porque não reprovar a ordem de Hugo Chávez para as forças armadas venezuelanas ocuparem aos limites colombianos?

Em nome da soberania nacional o governo brasileiro tem a obrigação de se afirmar. Até pelo tamanho geográfico e populacional. Não falo nem de Lula da Silva, mas da tradicional política seguida pelo Itamaraty de que é necessário ver a ingerência desestabilizadora de Hugo Chávez na Amazônia. A corrida armamentista do coronel-presidente é preocupante, mas o pior é o intervencionismo político, usando uma espécie de mensalão pago em petrodólares.

Esconder esta realidade é querer tapar o sol com uma peneira. Por isso o Brasil não pode ficar no discurso pacifista, etc., etc. Não aceitar as provocações bolivianas – invadindo as instalações da Petrobras e arriando a bandeira nacional – e muito menos aceitando o estímulo dado por Chávez às FARC. Quem muito se abaixa… Permite que após eleições os paraguaios queiram nos tomar Itaipu…

Miranda Sá

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