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Artigo publicado no JH1ªEDIÇÃO de ontem, dia 29

António – assim, com acento agudo

MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uoil.com.br

Quando eu dirigia o Departamento Estadual de Imprensa na Associação Brasileira das Imprensas Oficiais – ABIO, tive a oportunidade de participar com delegados de imprensas oficiais de países de língua portuguesa de um Seminário sobre o Acordo Ortográfico.

A maioria dos presentes ouviu calada, uma excelente exposição do representante de Portugal defendendo a reforma, mas eu não me conformei. Já havia tomado conhecimento das propostas da Academia Brasileira de Letras – ABL e a posição assumida pela Associação Brasileira de Imprensa – ABI, e tinha formado juízo crítico sobre o debate.

Agora o parlamento português ratificou o acordo, tornando a nova ortografia uma realidade, pelo menos do ponto de vista lusitano. Aqui, aproveitando a ignorância da imensa maioria dos congressistas, o senador e imortal José Sarney faz lobby a favor das modificações aprovadas no país originário do idioma.

Isto não segura as críticas às mudanças propostas que não influenciarão da construção dinâmica e permanente da língua falada pelos sete povos procedentes de Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Destes, até agora, oficializaram a unificação ortográfica, Brasil, Cabo Verde, Portugal e São Tomé e Príncipe. Os demais ainda costuram proposições adequadas às suas realidades. Lembro-me que o colega angolano rebateu os critérios adotados pelos portugueses na discussão que iniciei.

Não aceitamos escrever “óptimo”, com este “p” pedante, e consideramos uma bobagem suprimir alguns acentos que usamos acompanhando a fonética coloquial, como o caso da palavra idéia. De que vale intrometer-se na linguagem popular tirando o acento agudo de idéia, deslocando-o para o substantivo próprio “António”?

Sem piada, é coisa de português, despender tanto tempo (lá vão quase 20 anos de controvérsias e acirradas polêmicas) e tanto esforço se se poderia deixar cada país usar sua própria regra ortográfica na literatura e documentos oficiais se isso em nada prejudica sua compreensão pelos coirmãos da Comunidade de Língua Portuguesa?

Lembro-me que na reunião fui um pouco irônico e um tanto irreverente, fazendo trocadilhos com o sotaque do português de Portugal e esnobando os portugueses, apropriando-me do belíssimo conceito camoniano da “última flor do Lácio”, dizendo que ela vicejava no Brasil.

Finalmente, conseguimos no evento patrocinado pela ABIO, adiar uma resolução. E o argumento mais forte foi menos lingüístico do que econômico, lembrando os gastos que a reforma traria com a inutilização dos dicionários vigentes e outros impressos literários ou didáticos.

Esperamos que o Parlamento Português e José Sarney esperem um pouco para impor sua maneira de escrever. Enquanto isso, os professores de Santo Antonio do Salto da Onça não precisarão botar acento agudo no padroeiro dos namorados…

Miranda Sá

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