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Artigo publicado n’ O Jornal de Natal. Nas bancas

A Serra da Estrela no Rio Grande do Norte

MIRANDA SÁ, jornalista

E-mail: mirandasa@uol.com.br

Tem um ditado que reza “Quando Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. Não sei de onde se tirou este ensinamento, mas minha mãe tinha o costume de usá-lo; e ele ficou gravado nos meus ouvidos.

Agora me serviu, depois que o velho amigo e camarada Iran Barroso me falou que o João Maria Bulhões voltou a fazer artezaanalmente o excelente queijo de cabra lá no Sítio Jardim, em Nísia Floresta.

Não é de hoje que Bulhões manufatura o fino lacticínio, famoso na Europa pelas notáveis qualidades. Entre todos, é celebérrimo o queijo da Serra da Estrela em Portugal e, como não podemos ir até lá, Bulhões arrastou-a, atravessou o Atlântico e trouxe-a para nós.

Para quem gosta de viajar, vale a pena ir até o Parque Natural da Serra da Estrela na terra lusitana. Com 2.000 metros de altitude fica situado entre os municípios de Seia e Covilhã na formação montanhosa que os romanos chamavam de Montes Hermínios (Herminius Mons).

No caderno de viagem, duas anotações: “aqui nasceu o guerreiro Viriato, líder da resistência lusitana contra o invasor estrangeiro; e se produz um dos melhores queijos do mundo”.

Nós, do Rio Grande do Norte, que também temos os antigos guerreiros potiguares, resistentes ao invasor e podemos também apreciar a maravilha gastronômica que os portugueses acreditam ser uma receita exclusiva.. E cobram muito caro por ela.

Conheci o queijo camambert de cabra, produzido no Sul da França. Tem uma marca que rola nas casas importadoras, o Président de Chèvre. Este, porém, é um caso à parte, especial para os degustadores de fondues.

Aliás, é bom dizer que mais de 70% dos queijos de cabra vendidos em Paris ou são portugueses ou espanhóis. Quando por lá andei descobri numa bodega onde fazia minhas compras, principalmente de vinhos e queijos, descobri os queijos de cabra portugueses, caros para um pobre exilado.

Em Paris, colaborei no jornal Portugal Livre do jornalista Mário Soares, então exilado e depois presidente eleito de Portugal. Quando sobravam alguns trocados – difíceis, na época – eu e os “patrícios” não vacilávamos em comprar um bom queijo da Serra da Estrela premiando nosso paladar e matando a saudade da terrinha.

Voltando à cabra fria, Quando o Iran – O velho, (porque há o Iran novo no Banco do Brasil de São José do Mipibu), presenteou-me com o magnífico queijo de leite de cabra, a memória ferveu e as recordações de um passado distante afloraram. Assim, a montanha veio a Maomé.

Assim conclui que, em termos gastronômicos, nada mais agradável para uma volta ao passado do que o bom vinho das uvas Malbec, essa maravilha argentina, e o queijo de cabra que Bulhões produz, conservando as propriedades originais, o caráter, o sabor peculiar e, principalmente por obtê-lo artezanalmente tal como na Serra da Estrela…

Miranda Sá

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