Bolsa Família, uma usina de votos
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa @uol.com.br
Uma análise histórica isenta como deve ser, mostra a metamorfose sofrida pelos fundadores do PT após a eleição de Lula da Silva para a Presidência da República. Os que não saíram depois da sintomática escolha de Henrique Meirelles para o Banco Central e discordando das sucessivas medidas neoliberais da reforma da Previdência para cá, dividem-se em três categorias.
A corrente majoritária é formada pelos acomodados com a situação. Lavaram as mãos no engavetamento do programa do partido e trataram de se locupletar no aparelho administrativo do governo, ou flanando nas ONGs da corrupção paralela. A outra é a fração intelectualizada que ficou abalada com os desvios ideológicos passou a empenhar-se politicamente na busca de argumentos para explicar e justificar as falhas e os erros do Pelegão.
Sem muitos integrantes, mas muitíssimo influente, é a terceira turma que engrossa a base parlamentar do partido. Embora brigando entre si, os vereadores, deputados estaduais e federais, senadores e a vasta assessoria formam sem dúvida a intelligêntsia da organização. É este grupo que representa o novo PT, isto é, que possui o diapasão para o coro dos defensores incondicionais do PT-governo.
Nenhum dos três bandos é capaz de uma autocrítica. Uns, por vantagens pessoais ou grupistas; outros, querendo ressuscitar a esperança perdida; e mais alguns pelo carreirismo desenfreado dos eleitoralistas profissionais.
Felizmente ainda sobram idealistas puros, que brotam como um lírio no lamaçal. Um deles é o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, um dos grandes batalhadores pela justiça social e ex-coordenador do Fome Zero, principal programa social do primeiro mandato do presidente Lula da Silva. Frei Beto, como é mais conhecido, destacou-se esta semana reprovando o assistencialismo do Bolsa-Família.
Em entrevista dada ao jornalista Vicente Toledo Júnior, da UolNews de São Paulo, Frei Beto – que foi assessor especial da Presidência da República – foi contundente ao mostrar os enganos cometidos, a intervenção negativa da burocracia e as negociadas feitas à margem do Programa. Indiscutivelmente um pensador de esquerda – da esquerda socialista – o Dominicano, teólogo e escritor, deixa uma pergunta no ar:
“Por que o governo federal não comemora cinco anos do Fome Zero e sim quatro do Bolsa Família? É uma pena que um programa muito mais amplo, e de perfil emancipatório, formatado pelo próprio governo Lula, e tido como prioritário, tenha sido substituído pelo Bolsa Família, que tem caráter mais assistencialista. É claro que o governo tem motivos para comemorar, afinal, depois da Previdência Social, o Bolsa Família é o maior programa de distribuição de renda existente no Brasil. E também a maior usina de votos favoráveis ao governo. Espero, entretanto, que o resgate de uma importante medida do Fome Zero – estabelecer prazo para as famílias se emanciparem do programa – venha a imprimir ao Bolsa Família um caráter mais educativo, de promoção cidadã. É preciso que os beneficiários produzam sua própria renda, sem depender do poder público nem correr o risco de retornar à miséria”.
Nada é preciso acrescentar a esta exposição lúcida. Nem Lula da Silva nem o seu governo querem emancipar o povão e sim promover o neo-coronelismo, que abandonou a reforma agrária, engavetou o projeto das cooperativas, restaurantes populares e o Banco Popular, que só existe hoje no papel (e na mídia).
Está dito: o Bolsa-Família é uma usina de votos e nada mais. Criou uma dependência menos social do que orgânica para os beneficiários sem caminho de volta. A produção rural necessita de braços, a indústria não encontra trabalhadores qualificados, os pequenos sítios e granjas já não conseguem empregados, enfim, o eleitor do Pelegão, consciente de ser uma mercadoria comprada, decide: “pernas pro ar, que não sou de ferro”.
Paralelamente chegam os oportunistas à cata de votos e vantagens. Os cabos eleitorais que substituíram a gloriosa militância do PT estão satisfeitos em manter-se permanentemente; vereadores e preitos, gestores municipais do Programa dão sinais claros de ações corruptas e corruptoras; e a sociedade civil organizada vê-se impotente assistindo tudo isso. O tóxico inoculado nas veias que determinará sua própria degenerescência.
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