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ARTIGO DE DORA KRAMMER

Uma vez mais a notável articulista Dora Krammer faz uma análise correta de como a liberdade de imprensa ecoa nos meios que reúnem os salteadores do Erário. Agora transformados em réus pelo STF, os indivíduos que formaram a “organização criminosa” denunciada pelo Procurador-Geral da República, culpam a mídia pela descoberta dos seus ilícitos e o flagrante da malversação do dinheiro público. É essencial o conhecimento deste texto de interesse público. Vamos abrir aspas para Dora:

A ditadura do ‘reportariado’

Quando vocaliza por intermédio de sua facção de réus o inconformismo com a “ditadura da mídia”, o PT não está comprando briga com a imprensa. Desta, ele gosta se pode usá-la. Quando parte para o ataque aos meios de comunicação alegando “excessos”, está mesmo é se revoltando contra a liberdade de expressão e o direito universal à informação. Estes, o PT detesta se não os controla ou os manipula em favor de suas conveniências. Do presidente Luiz Inácio da Silva ao seu ex-ministro da Casa Civil processado por corrupção ativa e formação de quadrilha, passando por outros menos cotados, mas igualmente enquadrados em diversos artigos do Código Penal, todos se valem exatamente dos instrumentos que criticam para desviar o foco do motivo essencial de seus infortúnios.

Sem o noticiário que tanto os desconforta – no ex-ministro José Dirceu provoca “pânico” -, não teriam discurso. Aliás, nem teriam chegado ao poder, mas esta é outra história, a respeito da qual muito já se falou. Os queixumes mais recentes se sustentaram justamente em reportagens publicadas pelos jornais. Exemplo, o relato da Folha de S.Paulo sobre a conversa telefônica em que o ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski dizia para o irmão que o tribunal recebera a denúncia contra os acusados no escândalo do mensalão porque cedera à pressão da imprensa, com a “faca no pescoço”.

Dirceu exibia o exemplar a título de “prova” de que a imprensa caminha para tomar de assalto as mentes, os corações e as instituições do País. Fazia isso em entrevista coletiva onde era tratado como autoridade, ato possível porque a imprensa em sua função noticiosa não briga com os fatos. Se julgasse e disputasse poder, como argumentam Dirceu e companhia, não estaria ali a ouvir e registrar desaforos de quem se apresenta como adversário e usa o inimigo no propósito de dar divulgação à sua tese. O “reportariado” – jargão jornalístico para definir o coletivo de repórter – estava ali fazendo o seu trabalho e Dirceu o dele. Simples assim.

O PT sabe muito bem como as coisas funcionam e delas jamais reclamou. Ao longo de sua existência, valeu-se dessa mecânica para se firmar como a oposição mais vigorosa que o País já teve da redemocratização para cá. Ontem o partido iniciou seu 3º Congresso disposto a reservar boa parte dos debates para reclamar da imprensa. Desvia-se do ponto central de seus problemas, que são justamente aquelas pessoas que fizeram o que fizeram e continuam sendo afagadas pelo partido. É do jogo, criticados sempre reclamam. Mas as coisas assumem uma feição um pouco mais grave quando o Estado, na pessoa do presidente da República, se dá ao desfrute de fazer avaliações sobre a amplitude do trabalho da imprensa sob a ótica da vontade de restringir.

Imprensa, na concepção desses autores, é boa quando a favor. Como, se for livre, necessariamente terá de se opor quando o uso do discernimento assim justificar, o que se observa nessas manifestações é o desejo de limitar a liberdade, enquadrá-la nos parâmetros tidos como adequados às melhores circunstâncias para o poder de plantão. Mas, considerando o princípio de alternância do poder, natural seria que o PT pensasse no dia de amanhã e não se arriscasse a defender teses que podem contrariar seus interesses quando porventura volte a ser oposição. A menos que não considere essa hipótese e esteja lá no fundo raciocinando sob a ótica passadista da ditadura do proletariado. Dora Krammer, jornalista

Miranda Sá

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