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A minha velha Semana Santa

Por: Henrique Neto

No meu tempo de menino em Espírito Santo, a Semana Santa era comemorada com alguns rituais que hoje em dia não sei se ainda existem, diferentemente daqui do Sudeste, onde o costume é celebrar apenas o domingo de Páscoa.

O texto a seguir foi escrito em 2002, mas como tenho especial carinho por ele, divido aqui com vocês essas lembranças já me desculpando com as pessoas que o conhecem de outros sites onde eu já o tenha publicado.

***

Na Semana Santa, nas casas onde as famílias eram mais tementes a Deus, todos os quadros eram virados contra a parede ou cobertos por um pano. Este ato (se não me trai a memória) simbolizava a compaixão pela dor de Jesus Cristo. Na Sexta-feira da Paixão, comer carne nem pensar. Ouvir música ou ligar ar TV era inflamar a Deus. E se de novo não me engano, algumas pessoas também não achavam muito certa a prática do banho.

Ainda na Sexta-feira Santa a tradição (e a pobreza dos mais necessitados que se aproveitavam da data) mandava que as crianças saíssem de porta em porta pedindo esmolas. O dono da casa que não atendesse a esses pedidos – que eram muitos -, estava cometendo um pecado. Dos grandes. Ir pedir ‘abença’ (como ainda hoje se diz) aos padrinhos nesse dia era um excelente negócio, pois eles eram obrigados a dar a esmola aos seus afilhados. Lá em casa, onde não fugimos em nada à regra, minha avó teve o cuidado de só chamar o povo lorde para nos apadrinhar. Um dos meus irmãos foi pedir ‘abença’ a este dito padrinho rico e o distinto senhor lhe deu um côco seco de esmola. Indignado com este ato de pão-durismo, meu irmão rebolou no meio da rua o fino presente que acabara de receber.

De noite, no único e pequeno cinema que tinha na cidade, o de Zé Honório, eram exibidas várias sessões do filme ‘A Paixão de Cristo’ para dar conta da cidade toda o assistir. A cópia da fita era tão velha que durante a projeção arrebentava várias vezes, obrigando o pobre do Maninho – projetista do cinema – a cortar um pedaço da película e tornar a remendar com durex. Não precisa ser muito esperto para saber que, ano após ano essa cópia ia ficando mais curta. Pior era quando a fita começava a pegar fogo e se via as labaredas projetadas na tela. Uma parte chata era quando tínhamos que aguardar a fita vir da cidade vizinha, onde o filme ‘passava’ primeiro em outro cinema de Zé Honório. Qualquer semelhança com ‘Cinema Paradiso’ não é mera coincidência.

E para terminar a Sexta-feira da Paixão em grande estilo, após a meia noite era feita a tradicional malhação do judas com os bonecos feitos por Chiquinho Preto. Era uma farra para a meninada. Depois se comia galinha caipira que, necessariamente, tinha de ser roubada do quintal dos vizinhos ou nos sítios das redondezas, acompanhada de uma boa cachaça, que ninguém era de ferro.

Tempos bons aqueles.

Miranda Sá

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Miranda Sá
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