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Poesia

A FÊMEA DA ESPÉCIE

Se o camponês do Himalaia encontra um urso feroz,

ele grita para o monstro, de modo a baixar-lhe o facho;

mas a ursa fêmea, acossada, mostra as garras, mostra os dentes,

pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando Nag, a cobra, astuto, ouve passos descuidosos,

se arrasta às vezes, de lado, evitando algum empacho;

mas a sua companheira não se arreda do caminho,

pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

Quando os Jesuítas pregaram para os Hurons e os Choctaws,

rezavam por não ser presas do feminino penacho,

que elas – e não os guerreiros – é que os faziam tremer,

pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

O peito tímido do Homem explode sem dizer nada,

pois da Mulher por Deus dada não se dispõe com despacho,

mas a história do marido confirma a do caçador –

pois a fêmea de uma espécie é mais mortal do que o macho.

O Homem, urso em muitos casos, verme ou selvagem em outros,

propõe negociações e reconhece o contrato;

só muito raro é que torce a lógica da evidência

até a extrema conclusão, num imperdoável ato.

Medo ou tolice é que o impelem, antes de punir os maus,

a dar julgamento justo ao vilão mais irreflexo.

O júbilo aplaca-lhe a ira; dúvida e pena não raro

pasmam-no em muitas questões – para o escândalo do Sexo!

Mas a Mulher por Deus dada cada fibra de seu corpo

numa questão só aplica, de ânimo aceso em fogacho;

e por concluir a questão, prevendo falhas futuras,

a fêmea da espécie tem de ser mais mortal que o macho.

Quem Morte e tortura enfrenta pelos que tem junto ao seio,

não a detêm pena ou dúvida – não se curva a fato ou piada.

Isso é diversão para homens, de que a honra dela não pende;

Ela, a Outra Lei que nós temos, é aquela Lei e mais nada!

Ela não pode dar vida para além do que a engrandece,

como a Mãe do Infante ou como Companheira do seu Par;

e quando, faltando Infante e Homem, clama o seu direito

de femme (ou barão), é o mesmo o equipamento a empregar.

Com convicções é casada, pois faltam laços maiores;

suas rusgas são seus filhos, e ai de quem disso se esquece!

Não terá frios debates, mas pronta, desperta, instante,

a guerrear por esposo e filho, a fêmea da espécie.

Sem provocações e ameaças, a fêmea do urso assim briga;

e com a fala que envenena e rói, a cobra sem dó;

e vivisseção científica do nervo até que ele seque,

e de dor se estorça a vítima – como com o Jesuíta a squaw!

Assim é que o Homem, covarde, quando se ajunta em concílio

com seus bravos companheiros, para ela um lugar não rende

onde, em guerra com a Consciência e a Vida, levanta as mãos

a um Deus de abstrata justiça – que mulher alguma entende.

O Homem sabe! E sabe mais: que a Mulher que Deus lhe deu

deve ordenar sem impor-se, sem obrigá-lo ao agacho;

e Ela sabe, pois o avisa, e Seus instintos não falham,

que a fêmea da Sua espécie é mais mortal do que o macho!

Rudyard Kipling

O Poeta

O sucesso de Kipling (1865-1936), o primeiro britânico a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1907, deve-se a mais de 300 contos, fábulas, romances de aventura e baladas populares.

Como jornalista na Índia, entre 1882 e 1892, descreveu suas experiências em escritos quase impressionistas. Obteve grande popularidade com O Livro da Selva e Kim (1901). Elogiava o imperialismo britânico e chegava mesmo a defender, em seus poemas, a existência da Commonwealth, a Comunidade Britânica, e a missão civilizadora de seus compatriotas.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
Temas: Rudyard Kipling

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