Categorias: Notas

Poesia

ÂNGULO

Aonde irei neste sem-fim perdido,

Neste mar oco de certezas mortas? –

Fingidas, afinal, todas as portas

Que no dique julguei ter construído…

Barcaças dos meus ímpetos tigrados,

Que oceano vos dormiram de Segredo?

Partiste-vos, transportes encantados,

De embate, em alma ao roxo, a que rochedo?…

– Ó nau de festa, ó ruiva de aventura

Onde, em champanhe, a minha ânsia ia,

Quebraste-vos também ou, por ventura,

Fundeaste a Ouro em portos de alquimia?…

Chegaram à baía os galeões

Com as sete Princesas que morreram.

Regatas de luar não se correram…

As bandeiras velaram-se, orações…

Detive-me na ponte, debruçado,

Mas a ponte era falsa – e derradeira.

Segui no cais. O cais era abaulado,

Cais fingido sem mar à sua beira…

Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes

Que um Outro, só metade, quer passar

Em miragens de falsos horizontes –

Um outro que eu não posso acorrentar…

Mário de Sá Carneiro

(Barcelona, Setembro de 1914)

O Poeta

Escritor português, natural de Lisboa. A mãe morreu quando Sá-Carneiro tinha apenas dois anos e, em 1894, o pai iniciou uma vida de viagens, deixando o filho com os avós e uma ama na Quinta da Victória, em Camarate. Em 1900, entrou no liceu do Carmo, começando, então, a escrever poesia.

Entretanto, o pai, de regresso dos Estados Unidos, levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu O Chinó, jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica. Em 1907 participou como ator, numa récita a favor das vítimas do incêndio da Madalena, e no ano seguinte colaborou, com pequenos contos, na revista Azulejos.

Transferido, em 1909, para o Liceu Camões, escreveu, em colaboração com Thomaz Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se no ano seguinte), a peça Amizade. Impressionado com a morte do amigo, dedicou-lhe o poema A Um Suicida, 1911.

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Marjorie Salu

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Marjorie Salu
Temas: Mário de Sá Carneiro

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