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Poesia

POR QUE CANTAMOS

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos
se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

Mario Benedetti

(De Retratos y Canciones)

O Poeta

Mario Benedetti, poeta, romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e crítico, que faleceu neste domingo (17) em Montevidéu aos 88 anos de idade, foi o mais prolífico expoente da literatura uruguaia, com obras traduzidas em vários idiomas.

Em agosto de 2008 lançou “Testigo de uno mismo”, escrito em verso, livro mais introspectivo e afastado de seu habitual compromisso sócio-político.

Atualmente, trabalhava em “Biografía para encontrarme”, um novo livro de poemas, gênero com o qual se sentia “mais confortável”, segundo confessou em uma entrevista para a Associação de Imprensa Estrangeira no Uruguai.

Autor de dezenas de livros, Benedetti recebeu vários prêmios literários, entre eles o Prêmio Internacional Menéndez Pelayo, em 2005, o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, em 1999 e o Prêmio Iberoamericano José Martí, em 2001.

Em seus romances, Benedetti explora a natureza humana e retrata a classe média, em particular os burocratas, e em muitas ocasiões não disfarça nem dissimula seu compromisso político com os movimentos de esquerda.

Nascido em 14 de setembro de 1920 em Paso de los Toros (250 km ao norte de Montevidéu), Benedetti, cujo nome de batismo é Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno, se mudou ainda criança com a família para a capital uruguaia.

Doctor honoris causa de universidades latino-americanas e européias, o falecido escritor estudou no Colégio Alemão e em um liceu público, concluindo seus estudos secundários de forma livre devido às dificuldades econômicas de sua família, que o obrigaram a trabalhar desde os 14 anos.

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Marjorie Salu

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Marjorie Salu
Temas: Poesia uruguaia

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