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Poesia

ESPANHA, AFASTA DE MIM ESTE CÁLICE

Crianças do mundo,

se a Espanha cai – digo só por dizer –

se cai

do céu abaixo seu antebraço que amarrem

pelo cabresto duas lâminas terrestres;

crianças, que idade a das frontes côncavas!

Como é cedo no sol que vos dizia!

Que veloz o ruído antigo em vosso peito!

No caderno que velho é o vosso 2!

Crianças do mundo, está

a mãe Espanha com o seu ventre às costas;

está nossa mestra com suas palmatórias,

está mãe e mestra,

cruz e madeira, porque vos deu a altura,

vertigem e divisão e soma, crianças;

ela está com ela, pais processuais!

Se cai – digo só por dizer – se cai

a Espanha, da terra para abaixo,

crianças, como cessareis de crescer!

Como o ano vai castigar o mês!

Como os dentes se reduzirão a dez,

a garatujas o ditongo, o pranto a medalha.

Como vai o cordeirinho continuar

preso pela pata ao grande tinteiro!

Como descereis as grades do alfabeto

até a letra em que a pena nasceu!

Crianças

filhos dos guerreiros, entretanto,

baixai a voz, que a Espanha está neste momento repartindo

a energia entre o reino animal,

as florezinhas, os cometas e os homens.

Baixai a voz, que está

com o seu rigor, que é grande, sem saber

o que fazer, e está em sua mão

a caveira falando e fala e fala,

a caveira, aquela que tem tranças,

a caveira da vida.

Baixai a voz, vos digo:

baixai a voz, o canto das sílabas, o pranto

da matéria e o rumor menor das pirâmides, e ainda

o das frontes que andam com duas pedras!

Baixai a respiração, e se

o antebraço desce,

se as férulas soam, se é a noite,

se cabe o céu em dois limbos terrestres,

se há ruído no som das portas,

se eu tardo,

se não vedes ninguém, se vos assustam

os lápis sem ponta, se a mãe

Espanha cai – digo só por dizer –

crianças do mundo, andai, a procurá-la!

César Vallejo

(Tradução de Gilfrancisco Santos)

O Poeta

Nasceu em Santiago de Chuco, região andina localizada ao norte do Perú, no seio de uma família com origens espanholas e indígenas. Desde pequeno conheceu a miséria, mas teve o afeto familiar que longe do qual tinha um incurável sentimento de orfandade. Estudou na Universidade de Trujillo, cidade onde descobriu a boemia influenciado por jornalistas, escritores e políticos rebeldes.

Em Trujillo, Vallejo publicou seus primeiros poemas antes de chegar a Lima no final de 1917. Nesta cidade lança seu primeiro livro: Los Heraldos Negros (impresso em 1918, lançado em 1919), um dos mais representativos exemplos de pósmodernismo.

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Miranda Sá

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Miranda Sá

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