Categorias: Notícias

O odor que emana do Senado

Vamos ao Editorial do Estadão para ver o que está pensando a imprensa golpista das elites. Abre aspas:

Já não tivesse dito na véspera que “o que não pode é o Senado ficar sangrando e, mais do que isso, fedendo”, o representante de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, teria motivos de sobra para dizê-lo, em tom ainda mais enfático, na quinta-feira. Até os mais calejados observadores dos costumes políticos nacionais hão de ter sentido vergonha pelas novas demonstrações de cinismo e ignomínia que enxovalharam nesse dia a Casa, sangrando há cinco semanas em razão das jogadas do seu presidente Renan Calheiros para enterrar, custe o que custar, as denúncias contra ele. O vexame mais espetaculoso foi proporcionado pelo senador peemedebista Joaquim Roriz, que está para o Distrito Federal (DF) – onde exerceu quatro mandatos de governador – como os velhos coronéis do voto de cabresto e do assistencialismo estão para os grotões do Brasil arcaico.

No fim da semana passada, com se sabe, a imprensa divulgou trechos de gravações feitas pela polícia do DF, em 13 de março, nas quais se ouve Roriz acertando a partilha de uma bolada, no escritório do magnata dos transportes Constantino de Oliveira, o Nenê, com o ex-presidente do Banco Regional de Brasília Tarcísio Franklin de Moura. Ele é um dos 19 presos da Operação Aquarela, por suspeita de desvio de R$ 50 milhões do banco. A intragável versão de Roriz é a de que pedira a Nenê um empréstimo de R$ 300 mil para um negócio com gado, recebeu um cheque de R$ 2,2 milhões, sacou-o e devolveu o troco. Investigado pelo corregedor do Senado, Romeu Tuma, e alvo de um pedido do PSOL para que seja processado no Conselho de Ética, Roriz enfim apareceu para se defender.

O que apresentou da tribuna, em 40 minutos, diante de apenas 13 dos seus 80 pares, foi uma grotesca farsa de um cinismo que chegou a assumir ares de deboche. Maltratando as palavras, a sintaxe e a lógica, falou de sua compaixão pelos pobres (“só pensava, dia e noite, em quem passava necessidade e fome”), se irmanou a Calheiros no papel de vítima da “imprensa opressora” (“a imprensa, quando quer, massacra”), apregoou o seu fervor religioso (“prostrado de joelhos, pedi a Nossa Senhora que me desse forças”), abanou duas folhas de papel como se fossem procurações para a quebra dos seus sigilos, verteu, como diria Nelson Rodrigues, lágrimas de esguicho – e não convenceu ninguém. Perto dos 71 anos, Roriz está no pior dos mundos: se renunciar para não ser cassado, ou se enfrentar o processo e for cassado, como tudo indica que será, perderá o direito ao foro privilegiado e poderá a qualquer momento juntar-se aos detentos da Aquarela. Mas isso é problema dele.

Problema dos senadores, que nesse caso tornarão a ofender a sensibilidade olfativa de Jarbas Vasconcelos, será a tentação de transformar Roriz em boi de piranha, para que Calheiros passe impune, com as suas fabulosas boiadas, as suas ligações promíscuas com o lobista de uma empreiteira – e a sua recusa em se aperrear com a hemorragia do auto-respeito da instituição, desencadeada por sua patológica teimosia de se abraçar ao cargo. O mais recente produto dessa indiferença pelo destino da Casa, que ele parece disposto a levar consigo aos porões da desonra, foi a torpeza que fez par com a indecorosa farsa de Roriz. É mais uma história de submundo político. Tendo o petista Sibá Machado renunciado à presidência do Conselho de Ética, Renan acionou a sua tropa de choque para indicar, como sucessor, o também peemedebista Leomar Quintanilha, do Tocantins.

Eis um personagem que se sente bem na atmosfera em que vive a Casa. Ele figura em dois inquéritos abertos no Supremo, a pedido do Ministério Público. É acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. A polícia localizou 14 cheques no total de R$ 283 mil em favor de um irmão e de um assessor de Quintanilha, emitidos por uma empreiteira beneficiada por emendas ao Orçamento de sua autoria. Para se eleger no Conselho com votos da oposição, anunciou que seu candidato para a relatoria, igualmente vaga, era o capixaba Renato Casagrande, do PSB, favorável ao aprofundamento das investigações sobre Renan. Eleito, simplesmente deu o dito pelo não dito. “Está passando do limite”, protestou Casagrande. Qual a novidade? Jarbas Vasconcelos não havia afirmado que “a situação está ficando insustentável”?

Miranda Sá

Compartilhar
Publicado por
Miranda Sá

Textos Recentes

DOS VENENOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) O noticiário televisivo nos traz numerosos casos de envenenamento ocorridos em família, entre vizinhos e desafetos.…

14 de janeiro de 2026 18h06

DA VOLTA

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) Meditando no Mosteiro de Santa Catilina de Siena (B.A.) considerei ficar e lutar pelo imperativo da…

8 de janeiro de 2026 22h25

DOS ESPÍRITOS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A Ciência nos mostra que historicamente o ser humano, desde sua formação primitiva na pré-história, jamais…

8 de dezembro de 2025 9h23

DAS BALANÇAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) Um tuiteiro postou outro dia a foto de uma Balança antiga, de dois pratos e sua…

1 de dezembro de 2025 22h12

DOS MORTOS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) Fui provocado pela crônica "A Sofisticação da Simplicidade!" do intelectual gaúcho José Carlos Bortoloti, citando a…

24 de novembro de 2025 9h16

DAS COINCIDÊNCIAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A vida é cheia de coincidências; mas as coincidências que encontramos nos círculos políticos são exageradas.…

18 de novembro de 2025 19h44