Aqui
Aqui
os lençóis e colchas são trincheiras.
Se eu fosse Aladim
desceria na praia ardente de minha infância. Te visitaria.
Ainda pintas o cabelo?
No armário estarão as cartas de tua amante, minhas
fotografias de menina opaca,
postais de escolas, lembranças que sentam
comigo no metrô.
Quero respirar Havana, recuperar o mistério
de minha vida.
Ver as luzes e a maresia contra as pedras do calçadão.
O frio me paralisa.
Nesta cidade não se ouvem sinos,
os doces são inodoros, nem é quente o pão.
Quisera tomar garapa, mirar as palmeiras, ouvir
o pregão das mangueiras.
Me congelo na sujeira dos sacos plásticos entre
os ruídos e o odor infecto.
Quisera percorrer as ruas do Prado,
visitar os hotéis —guaridas da noite—
tocar o mármore nas poças de água,
molhar-me no chuvisco, encharcar-me.
Comer o meio-dia o arco-íris e os papagaios de papel.
Ver levar nas tinas, correr depois de beber rum,
visitar os amigos, contar-lhes
dizer-lhes que minha língua não fala este idioma
travada a ilusão estranha as palavras
as palavras, as palavras
não é a mesma coisa dizer window que janela
não é a mesma coisa dizer house do que lar.
(Tradução de Antonio Miranda)
Biografia de Magali Alabau aqui.
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