Categorias: Notas

Guilherme Fiúza escreve: “Mulher com Mulher”

Marina Silva vem aí. A ex-ministra do Meio Ambiente, com quem Lula brincou de esconde-esconde no governo (fingindo que a levava a sério), é a mais nova quase pré-candidata à Presidência da República.

Tem gente animada com a novidade. Estão até dizendo que Marina vai embaralhar a sucessão, porque sai do útero do PT e partilha a herança de Lula. A eleição perderia o enunciado fácil “Dilma contra eles”.

Tudo teoria. Dilma Rousseff está há quase três anos em campanha pelo Brasil inteiro, carregada pela máquina do governo e pela mão do Padre Cícero Lula da Silva. É forçar um pouco a barra imaginar que em pouco mais de seis meses de campanha franciscana (daqui que saia candidata), Marina Silva vá embaralhar alguma coisa.

Mas talvez embaralhe. E não pelos inúmeros motivos que têm sido levantados.

É defensora do meio ambiente, e o eleitorado está querendo votar por um futuro sustentável? Vamos deixar de brincadeira. Mudança climática que pode decidir eleição no Brasil é uma seca no Bolsa Família, ou o derretimento das calotas do Banco Central.

É uma das últimas defensoras de verdade da ética? De fato é. Mas já se viu, pela eleição de 2006 pós-mensalão, que esse tema infelizmente saiu de moda no Brasil.

Marina é cria do PT e ex-ministra de Lula? Isso pode legar-lhe algum capital político do presidente? Outra tese tola. Em dois tempos, o Duda Mendonça da vez apresenta Marina como traidora, como mais uma a abandonar o barco depois de criar dificuldades ao governo.

A bomba atômica de Marina Silva não é ser ecológica, nem ser petista, nem ser ética. É ser mulher.

Esse é o seu grande capital, que pode ser assimilado pelo povo numa campanha relâmpago. Não é preciso muita estratégia, nem muito discurso, nem muito tempo para mostrar a um país inteiro que alguém é mulher. E por que isso pode mudar tanto a eleição? Porque rouba de Dilma o único traço real do seu personagem eleitoral: ser mulher.

A mãe do PAC, a gerentona, a guerrilheira, a Bachelet daqui, a primeira presidenta – toda essa laranjada é uma variação sobre o tema “ser mulher”. Com outra mulher no páreo, Dilma deixa de ser a mamãe que vai suceder o papai e volta a ser apenas o que é de fato para a política nacional: nada.

É claro que continuará tendo o grande padrinho. Sem o trunfo da saia, porém, lhe restará tentar engrossar um pouco a voz e cometer alguns erros de português. Mas esse tipo de maquiagem é um pouco mais difícil de se fazer.

Guilherme Fiúza é jornalista e escritor.

Marjorie Salu

Compartilhar
Publicado por
Marjorie Salu

Textos Recentes

Razão.com

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A palavra "Razão" como verbete dicionarizado é um substantivo feminino com a etimologia vinda do grego…

3 de setembro de 2026 19h31

DOS HERÓIS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A minha profunda admiração pela figura de Bertolt Brecht, dramaturgo, filósofo e poeta alemão, o maior…

29 de agosto de 2026 21h54

DAS TRAGÉDIAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A Tragédia é um acontecimento muito grave e ruinoso, ligado a forças da natureza ou provocado…

26 de agosto de 2026 8h42

DO JORNALISMO

MIRANDA SÁ (E-mail; mirandasa@uol.com.br) O analfabetismo reinante na suprema corte de Justiça argumenta sobre o exercício do jornalismo para se…

19 de agosto de 2026 18h20

DAS VIGARICES

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A expressão "conto do vigário" é uma das mais tradicionais da língua portuguesa e significa um…

10 de agosto de 2026 17h34

ETCETERA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A casa da minha avó Quininha, mãe de minha mãe, era senhorial; tinha seis quartos, três…

5 de agosto de 2026 8h15