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ESQUISITICES NÓRDICAS. E PERGUNTAS AOS CREMADORES DE CORPOS,DEPOIS DO ADEUS A JOEL SILVEIRA

Texto do jornalista Geneton Moraes Neto. Vale pelos esclarecimentos e dúvidas que aqui acolá nos assolam a respeito do processo de cremação.

“O cineasta Ingmar Bergmann morreu no dia 30 de julho. O corpo só foi enterrado dezoito dias depois. Eis uma esquisitice nórdica. Por que demoram tanto para se desfazer da carcaça inerte ? Por que guardar o corpo por tanto tempo ?

Pela primeira vez na vida, compareci a um crematório, esta semana, para o adeus ao mestre e amigo de tantos anos, o grande repórter Joel Silveira. Já escrevi, aqui, sobre o ritual – simples, rápido, despojado, exatamente como ele queria.

Quando tudo acabou, fiquei com dúvidas. Terminei telefonando para o crematório, para matar a curiosidade ( o que diabos um repórter pode fazer neste vale de lágrimas, além de perguntas ?)

O caixão some de vista depois de deslizar por uma esteira. Quando a família & amigos vão embora, o time de cremadores entra em campo, nos bastidores.

Pergunto : o caixão, afinal de contas, é cremado junto com o corpo?

É,sim.

Quanto tempo demora a cremação ?

Cerca de três horas. Depois, uma hora para “resfriar”.

Qual é a temperatura lá dentro do forno ?

De 800 a 900 graus centígrados ( bombeiros que atuaram no acidente com o avião da TAM informaram que a temperatura dentro do prédio atingido pelo Boeing chegou a 1.000 graus. Ou seja : superior à de um forno crematório)

Aberto o forno, o que acontece com os restos ?

Passam por um triturador. Somente aí é que o corpo vira realmente pó. Vinte e quatro horas depois da cremação, o pó é entregue à família.

Nem com estrondo nem com suspiro. Isso é coisa de poeta. Pelo menos ali, como se fosse o último paradoxo possível, o corpo se extingue com uma labareda.

É tudo rápido, é tudo prático, é tudo higiênico. É bom que não haja demora. Para que prolongar sofrimentos ?

Mas, lá no fundo, não há como fugir de um sentimento incômodo : tudo pode ser rápido, prático e higiênico, mas tudo é também um grande e irremediável absurdo. O espanto de sempre se repete, irresolvido: como é possível que um feixe de ossos, músculos, tecidos e sentimentos, que funcionava até há tão pouco tempo, transmute-se em pó diante da mais absoluta indiferença da natureza ? (Registre-se que, lá fora do crematório, a tarde brilhava bonita e azul).

Toda vez que é provocado, como agora, nosso espanto ruge diante da morte. É inútil rugir, claro. Mas não há outra coisa a fazer.”


Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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