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Desabafo no Dia da Mulher – De Norberto Amaral

Enquanto a Fifa comemora o crescimento da participação feminina no futebol, e abre os olhos para o mercado que representa mais de 50% da população do planeta, o Brasil continua marchando na contra-mão da história.

Em 2008, a diretoria do Corinthians, o clube mais popular do sudeste do País, no meio do trauma gerado pela queda da equipe masculina à Série B do Brasileiro, anunciou com toda a pompa a criação de uma das mais fortes equipes de futebol feminino do país.

Trouxeram o ex-treinador das Seleções do Brasil e Venezuela, Ademar Júnior, e craques da nova e da velha guarda da modalidade, como a experiente capitã Juliana Cabral, a artilheira Nildinha, a estrela Cristiane, e a bela musa Renatinha, dentre tantas outras boas jogadoras.

Chegaram a promover a visita da melhor jogadora do mundo, Marta, ao Parque São Jorge, com diversas promessas de uma possível contratação.

O ano passou, a equipe se firmou dentre as quatro grandes do estado com apenas três meses de trabalho, e erros administrativos impediram um avanço maior no cenário nacional.

O Timão certamente estaria dentre os finalistas da Copa do Brasil, se os diretores que agora descartaram as guerreiras do alvi-negro, tivessem obedecido o regulamento e utilizado apenas as atletas registradas pelo Bid da CBF nas datas previstas pelo regulamento.

Quando todos esperavam por um Corinthians mais forte em 2009, a agora badalada diretoria que trouxe Ronaldo e levou o Timão de volta à Série A do Brasileirão, enrolou as craques do feminino por três meses, e no início de março simplesmente colocou no olho da rua algumas das maiores jogadoras que o Brasil conheceu.

Como desculpa, usaram um acordo ridículo com a inexpressiva equipe de São Caetano, que sequer participou de competições oficiais em 2008, que utilizará a gloriosa camisa do Timão sem custos para a diretoria.

Dessa maneira, as meninas do elenco de 2008 ficaram três meses sem salários, esperando pelo retorno aos treinos prometido pelos diretores, e ao retornarem ao clube foram informadas que estavam desempregadas, assim como a comissão técnica.

Foram usadas para entreter a torcida num dos piores momentos da história do Corinthians, e simplesmente descartadas quando já não eram mais necessárias.

Esse tratamento humilhante dispensado à mulher infelizmente está se tornando comum no futebol brasileiro.

Há algumas semanas, um dirigente do Fluminense, ao enaltecer o técnico Renê Simões, não pensou duas vezes antes de ofender à todas as atletas da Seleção Feminina Vice-Campeã e Olímpica e Mundial, às quais qualificou como portadoras de dois neurônios.

O que revolta ainda mais a quem se preocupa com os direitos e valorização da mulher, é que os salários de todo o elenco feminino do Corinthians, somado aos vencimentos da Comissão Técnica, não chegam a 50% do salário de uma única estrela do futebol masculino do Timão, e nem isto os dirigentes do Parque São Jorge querem destinar às meninas!

Outro aspecto nebuloso deste fato, é que um grupo de diretores do Corinthians associado a uma conhecida universidade paulista, aparece por trás desta verdadeira tramóia, proporcionando para seus parceiros uma forma barata de associar o nome da entidade ao Corinthians, sem que sequer se preocupem com a qualidade das atletas e da comissão técnica.

Um dia, as mulheres brasileiras seguirão o exemplo das desportistas americanas, e sairão às ruas para boicotar os produtos dos patrocinadores das equipes masculinas que exploram e denigrem o trabalho feminino.

Com quedas nas vendas, essas empresas talvez se preocupem em ensinar aos dirigentes do futebol masculino do Brasil que respeito e igualdade à mulher não são apenas uma concessão eventual daqueles que vivem no universo masculino, mas uma necessidade básica e um direito fundamental num mundo moderno e altamente competitivo.

Se o ato cometido pelos dirigentes do Corinthians tivesse ocorrido nos Estados Unidos, o clube estaria neste momento perdendo seus principais patrocinadores, e certamente envolvido em dezenas de ações judiciais de reparação.

Mas aqui no nosso Brasil, nada acontece.

E as nossas guerreiras continuam sua triste sina pelo direito básico de sobreviver dignamente da prática do futebol.

E como desabafou a nossa grande Capitã Juliana: “Até quando? E para quê?”

Além da mais profunda indignação contra toda a forma de discriminação, só resta torcer para que as filhas e sobrinhas dos atuais dirigentes corintianos encontrem em seus caminhos homens melhor preparados e mais justos em seus ambientes de trabalho do que aqueles que conhecem no ambiente familiar.

Norberto Amaral, jornalista

Fonte: Juca Kfouri

Marjorie Salu

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Marjorie Salu

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