Categorias: Artigo

CARNAVAL

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

“O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho” (Carlos Drummond de Andrade)

Embora com outros nomes, o Carnaval ocorre desde a mais remota antiguidade, como uma festa de liberação por um prazo concedido e limitado dos impulsos individuais e grupais em desacordo com as proibições políticas e religiosas.

Conhecido como entrudo, folguedo, folia, mascarada, orgia e troça, o verbete Carnaval, dicionarizado, é um substantivo masculino de origem latina, “carnis levale” que significa dizer “adeus à carne”.

Todas as civilizações antigas tiveram o seu carnaval; no Ocidente a herança prevalecente é greco-romana. Na Grécia antiga registram-se as festas dionisíacas em homenagem a Dionísio – deus mitológico, patrono do vinho -; e na Roma dos césares eram as chamadas bacanais, dedicadas ao deus da embriaguez, Baco.

As diversões apresentavam o caráter comum da subversão dos costumes e dos valores sociais, com escravos se vestindo de nobres, os marginais de sacerdotes e sempre os homens se vestindo de mulher e vice-versa.

A Igreja Católica se apropriou desses costumes arraigados entre os pagãos para controlar os prazeres mundanos dos fiéis, cujos desejos extravasados deveriam ser relacionados ao jejum da Quaresma. Assim, sob a influência vaticana o carnaval tornou-se uma “festa profana” consentida…

O carnaval chegou ao Brasil no período colonial copiando as festas europeias, principalmente as que ocorriam na Itália e na França no século XVI; aqui se mesclou com a influência indígena, logo no início, e depois com a chegada dos escravos africanos adotando o ritmo cadenciado da batucada. Em Pernambuco registram-se todas essas demonstrações originais.

Hoje a comercialização das festividades momescas (de “Rei Momo” personagem da mitologia grega) ultrapassou os três dias de liberdade para os brincantes que deveriam preceder a quarta-feira de cinzas. Na Bahia dura mais de um mês…

Fui um carnavalesco convicto. Hoje, dos folguedos restam pedacinhos coloridos de saudade como registrou poeticamente David Nasser na marchinha “Confete”… Eram gostosamente ingênuas as fantasias das meninas, bailarina, bruxa, colombina, havaiana, holandesa, índia, jardineira, noiva, odalisca… Os rapazes iam de arlequim, diabo, marinheiro, palhaço, pirata, presidiário, rei zulu, toureiro…

A mistura do sagrado e o profano favoreceu a caricatura da política, a crítica dos costumes e transformação temporária de gênero. Assim, o Carnaval – banditismo à parte -, é só alegria. Eis que saem das tocas as hienas do “politicamente correto” na sua prática inquisitorial das proibições…

Eis que a hipocrisia começou por Belo Horizonte, com a sua Câmara de Vereadores trazendo o avesso dos preconceitos, numa cartilha que expressa um “Carnis Levale

Prohibitorum”, sugerindo que homem não se vista de mulher, não se caracterize como índio, não se maquie de preto…

É a oficialização dos estereótipos numa festa de inversões… O que condenarão nas marchinhas clássicas que falam de “Favela” e não de Comunidade? E aquela maravilha de Lamartine Babo, “O teu cabelo não nega”? E o “Allah-La-ô” de Haroldo Barbosa e Nássara? E o “China Pau” de João de Barro?

Isto consideraria a reprovação dos grandes compositores da mais alta qualidade que os brasileiros ainda lembram e cantam. A culpa atingiria

Ari Barroso, Benedito Lacerda, Evaldo Rui, Fernando Lobo, Haroldo Lobo, Herivelto Martins, Noel Rosa e Wilson Batista, entre outros.

Considero criminoso censurar “A História da Maçã”, “Palhaço”, “Falta um zero no meu ordenado”, “Pedreiro Waldemar”, “Nega Maluca” e “Zé Marmita”. Estão condenadas já, a hilária “Cabelereira do Zezé” e a admirável composição de Ataulfo e Mário Lago, “Amélia”.

Eu consideraria espetacular que estes citados ícones das marchinhas carnavalescas ressuscitassem, e compusessem em conjunto, “A Marcha da Liberdade”!

Marjorie Salu

Compartilhar
Publicado por
Marjorie Salu

Textos Recentes

DAS FARSAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) A farsa e os farsantes têm um capítulo reservado na História da Civilização. Como os brasileiros…

31 de março de 2026 18h45

“GUERRA É GUERRA”

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) Tenho revelado nos meus posteres a minha defesa intransigente da Paz Mundial como forma de mantermos…

20 de março de 2026 11h57

ESTÚPIDA POLARIZAÇÃO

MIRANDA SÁ (Email: mirandaasa@uol.com.br) Impor a polarização eleitoral dos extremistas da falsa direita e da falsa esquerda pela massiva propaganda…

14 de março de 2026 8h41

DAS DROGAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) Segundo a mitologia greco-romana, arte de curar com drogas preparadas com ervas medicinais se deve ao…

7 de março de 2026 17h38

DAS LAPINHAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) As lapinhas (também conhecidas como pastoril) fazem parte da tradição popular nas festas de Natal e…

4 de março de 2026 19h44

AS CADEIRAS

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br) Na minha infância, lá se vão mais de 80 anos, havia uma brincadeira muito divertida em…

27 de fevereiro de 2026 19h36