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Caixa-preta

“A primeira mensagem do Planalto a respeito da tragédia de Congonhas não partiu da boca do presidente Lula, mas das mãos do seu assessor muito especial Marco Aurélio Garcia: top, top, top – acompanhado pela gesticulação do sub fiel Bruno Gaspar. A coreografia era “privada”, disseram os artistas na quinta à noite. Antes, porém, que o líder da nação viesse a público, com 72 horas de atraso, para dizer em cadeia nacional que “estamos todos com o coração sangrando” – a fala presidencial foi antecedida pela cerimônia onde o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, pregava no peito de dirigentes da Agência Nacional de Aviação Civil – Anac, medalhas de honra ao mérito por serviços prestados ao país.

São fatos, cada um deles escarnecedor à sua maneira. Em conjunto, desenham um padrão de conduta auto-explicativo. Uma das medalhistas dos Jogos do Horror Aéreo, a diretora da Anac Denise Abreu, disse em entrevista a Mônica Bergamo: “Ninguém bateu no ar, tá? Vocês estão confundindo. O acidente é o acidente. O sistema aéreo é o sistema aéreo. Não tem nada a ver, na-da a ver “linkar” tráfego aéreo com o acidente”.É a mesma senhora que, durante a greve dos controladores no final de março, um dos picos da crise que então completava seis meses, foi flagrada numa festa na Bahia, baforando um charutão. Mas não tem na-da a ver, tá?

O sistema aéreo do país entrou em colapso. Há muito a normalidade nos aeroportos se tornou uma exceção, há muito a rotina dos passageiros é feita de atrasos, transtornos, incertezas, humilhações, há muito as empresas usam o desgoverno oficial como biombo para ocultar suas mazelas e tirar mais proveito do descalabro geral. Os dois maiores acidentes aéreos do país mataram 351 pessoas em menos de um ano. Centenas de famílias foram arruinadas. De 29 de setembro de 2006 a 17 de julho de 2007, recebemos sinais quase diários de que a tragédia iria se repetir. A caixa-preta do acidente da TAM estava gritando havia nove meses”.

Fernando de Barros e Silva, jornalista

Miranda Sá

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