Categorias: Notas

Artigo saído no JH1ªEDIÇÃO

Cotas para tudo, agora para listas eleitorais

MIRANDA SÁ, jornalista (mirandasa@uol.com.br)

Para atender um resgate histórico de índios, negros e os descendentes desses pilares da nacionalidade, muitas escolas adotaram as cotas raciais, reserva para atender a demanda dos cidadãos excluídos do estabelecimento.

Em verdade, a inteligência negra e índia sempre tiveram destaque na vida nacional, brilhando nas profissões liberais, nas forças armadas, na literatura, no jornalismo e na política, mas foram frações minoritárias no Império e na República. Citar centenas de nomes é chover no molhado.

Não é possível esconder o valor dessas pessoas que enfrentaram preconceitos de todo naipe. Mas é preciso reconhecer também que a grande maioria deles não era pobre; e que sempre esteve na pobreza a causa primeira, a razão irrefutável da exclusão.

Assim defino minha posição contra as cotas raciais, e favorável às cotas sociais, defendendo que os pobres, amarelos, brancos, índios mamelucos, mulatos e negros (por ordem alfabética para ser politicamente correto) devem ter acesso facilitado à escola, à saúde e ao emprego.

Quanto às cotas eleitorais, trata-se de pura demagogia. Vão para o lixo da História como aquela reserva nas listas eleitorais para as mulheres, que nunca foi preenchida por falta de pretendentes.

É bom recordar que as legendas partidárias foram forçadas pela Lei 9.100, de 1995, a ceder 20% das vagas para mulheres, espaço que foi alargado mais tarde, em 1997, para 30%; todavia nenhum partido preencheu totalmente essa chapa diferenciada.

O remendo de reforma eleitoral costurado agora no Congresso volta a obrigar os partidos a cobrir a cota para as mulheres, apesar dos fracassos anteriores. Os dirigentes partidários, sob pena de punição legal, terão de armar o laço para prear mulheres, sujeitando-as a serem candidatas.

Na esteira destas “obrigações” irrealizáveis, vem com a “reforma eleitoral” outra reserva de candidaturas para negros, baseada no Estatuto da Igualdade Racial. Será um modesto quinhão, 10%, mas seja como for, a imposição é ilusória e de certa maneira injusta.

Injusta porque o militante partidário é quem deveria ter o mérito de representar o partido que defende. É o ativista, mais do que qualquer outro sujeito político, quem deve entrar nas vagas da chapa eleitoral. Ou será que a prioridade nas listas seria de outra pessoa, simplesmente por ter a pele de tal ou qual cor ou ser de determinado sexo?

Antigamente, os partidos comunistas stalinistas criavam cotas para as direções preservando cargos para judeus, negros e mulheres. Às vezes ficava difícil, aqui no Brasil, conseguir negros e judeus para ocupar as funções de mando que, na realidade não mandavam nada, sujeitos ao “centralismo democrático” e às ‘tróikas’ dirigentes.

Era inaceitável ver-se assumir a direção os que tinham reserva de mercado sem cumprir as tarefas, sem se arriscar na clandestinidade, enfim, sem suar a camisa e arriscar a liberdade.

É isso o que querem fazer no Brasil, em nome de uma democratização que, na realidade, nada tem de democrática. É verdade que negros e mulheres são minorias nos legislativos federal, estadual e municipal. Mas também o são no magistério, na magistratura, na oficialidade das forças armadas, nos sacerdócios religiosos e nas profissões liberais.

Trata-se de uma especificidade histórica que um dia – espero não muito distante – fatalmente mudará.

Miranda Sá

Compartilhar
Publicado por
Miranda Sá

Textos Recentes

Razão.com

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A palavra "Razão" como verbete dicionarizado é um substantivo feminino com a etimologia vinda do grego…

3 de setembro de 2026 19h31

DOS HERÓIS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A minha profunda admiração pela figura de Bertolt Brecht, dramaturgo, filósofo e poeta alemão, o maior…

29 de agosto de 2026 21h54

DAS TRAGÉDIAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A Tragédia é um acontecimento muito grave e ruinoso, ligado a forças da natureza ou provocado…

26 de agosto de 2026 8h42

DO JORNALISMO

MIRANDA SÁ (E-mail; mirandasa@uol.com.br) O analfabetismo reinante na suprema corte de Justiça argumenta sobre o exercício do jornalismo para se…

19 de agosto de 2026 18h20

DAS VIGARICES

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A expressão "conto do vigário" é uma das mais tradicionais da língua portuguesa e significa um…

10 de agosto de 2026 17h34

ETCETERA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br) A casa da minha avó Quininha, mãe de minha mãe, era senhorial; tinha seis quartos, três…

5 de agosto de 2026 8h15