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Células-tronco: aonde está a indecência?

Há um aspecto que vale uma reflexão em torno das pesquisas sobre células-tronco, cujo destino será resolvido pelo Supremo Tribunal Federal. Aceito discutir a idéia de que todo cidadão tem o direito de recusar-se a fazer uso dos benefícios da ciência em qualquer ramo da existência, mesmo que isso implique em riscos para sua vida: pode recusar-se a fazer uma transfusão de sangue ou um transplante de órgão.

Desde que convença o parceiro, também pode rejeitar o uso de camisinha. Também pode tornar-se vegetariano em função de convicções morais. Em qualquer caso, é a vida da pessoa, suas convicções e seus riscos, que estão em jogo. O que me parece estranho é querer obrigar os outros a fazer opções em função de valores que nem todos partilham – numa situação de vida ou morte. Podemos esquecer por um minuto aqueles debates sobre o caráter laico do Estado, sobre a cultura plural de nosso tempo e outros argumentos contemporâneos. Penso num diálogo olho no olho, biológico, entre pessoas iguais em deveres e direitos, em grau de consciência e responsabilidade.

Eu me pergunto como é possível encarar aquele sujeito que precisa dos benefícios da ciência, possíveis a partir das células-tronco, e lhe dizer não. Imagino frases: a): a pessoa olha para um cidadão numa cadeira de rodas e pensa consigo mesma: “ainda bem que não sou eu.” b): depois de encarar um paciente terminal, a pessoa vira-se para os parentes e explica: “não ia adiantar mesmo, as pesquisas ainda estão longe de ter uso prático.” c) “fique tranquilo: vamos nos encontrar numa nova vida?” d) “entendo seu problema, mas o Deus em que eu acredito não permite que isso seja feito. Pena que você não acredita n’Ele.” Respeito as religiões. Todas.

Mas não é possível ter um pensamento decente nessa hora. É imoral. Acho que este é um bom critério para o debate desta quarta-feira, quando o STF decide o uso de pesquisas sobre células-tronco. O que você acha?

Fonte: Paulo Moreira Leite

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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