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2016, a miragem

O Brasil e o Rio de Janeiro estão salvos. Vêm aí as Olimpíadas. Tudo vai acabar bem.

Vão entrar 30 bilhões de reais. Melhor que isso, só o pré-sal. Vai vir gente de todo canto. Estamos no primeiro mundo.

Brasileiros em geral e cariocas em particular embarcam com facilidade nesse tipo de visão do paraíso. A nave dos Jogos Olímpicos vai pousar no país do futebol para trazer alegria e prosperidade. E viva a indústria da esperança.

Nessas horas, a vida real fica olhando tudo meio de lado, como se dissesse: “Lá vão eles de novo. Daqui a dez anos a gente conversa”.

Infelizmente, ainda não foi inventado o desenvolvimento movido a oba-oba. Entrada bruta de dinheiro e gente é boa quando há plano para o crescimento. Quando não há, é veneno puro.

O Rio de Janeiro acumula esqueletos – urbanísticos e humanos. O da antiga capital da República, o da Eco-92 (maior cúpula de chefes de Estado da história), o da Fórmula 1, o dos Jogos Panamericanos. Todas promessas de desenvolvimento. Todas falidas.

A Eco-92, por exemplo, trouxe uma obra significativa de infra-estrutura, a Linha Vermelha. Não foi presente de ninguém, foi dinheiro do contribuinte – como será boa parte da festejada grana olímpica. É uma via expressa importante, que atravessa quilômetros e quilômetros de uma cidade sem dinheiro para usá-la. Dali saem os bandos armados que barbarizam a própria Linha Vermelha com tiroteios, assaltos e mortes. Vêm de favelas certamente inchadas com ajuda da mão-de-obra temporária deserdada pela Eco-92. Qual é a graça?

Barcelona se desenvolveu com as Olimpíadas daquele mesmo ano, 92. Barcelona tinha estrutura e planejamento para se desenvolver. Senão, ia só inchar.

As grandes cidades brasileiras são, cada vez mais, amontoados de gente periférica, infeliz, e conseqüentemente violenta. A repressão às bocas-de-fumo no Rio de Janeiro está fazendo explodir os arrastões a prédios residenciais. A cidade ainda vai ter saudade da venda de drogas.

Os Jogos Olímpicos de 2016 podem funcionar bem como evento. Como farol de desenvolvimento, é promessa falsa.

Vem mais um esqueleto por aí. Dos grandes. Mais um milagre da multiplicação dos deserdados, dos engarrafados, dos mal alojados, dos que chegaram fácil e vão penar para permanecer. Mas a festa será boa.

A população de Chicago está comemorando. Não queria Olimpíadas lá de jeito nenhum. Por que será?

Guilherme Fiúza, jornalista e cineasta

Marjorie Salu

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Marjorie Salu

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