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A Ponte Mirabeau

Sob esta ponte passa o rio Sena
e o nosso amor
lembrança tão pequena
sempre o prazer chegava após a pena

Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa

Mãos dadas nós fiquemos face a face
enquanto sob
a ponte dos braços passe
de eternas juras tédio que se enlace

Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa

E vai-se o amor como água corre atenta
e vai-se o amor
ai como a vida é tão lenta
e como só a esperança é violenta

Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa

Dias semanas passam à dezena
nem tempo volta
nem nosso amor nossa pena
sob esta ponte passa o rio Sena

Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa.

Apollinaire

O Poeta

O mais original, profundo e versátil dos renovadores da poesia francesa no primeiro quartel do século XX, Guillaume Apollinaire pode também ser apontado como um legítimo precursor de todos os movimentos vanguardistas surgidos nas décadas que se seguiram. Filho de mãe polonesa e pai italiano, Wilhelm Apollinaris de Kostrowitzki nasceu em Roma em 26 de agosto de 1880.

Foi levado, criança, para a Côte d’Azur e depois para Paris, onde se fixou. Traduziu obras libertinas e escreveu textos pornográficos. Em 1909 publicou o primeiro livro, L’Enchanteur pourrissant (O sedutor que apodrece). Ao mesmo tempo, tornou-se amigo de poetas como Max Jacob e de pintores como Pablo Picasso e Georges Braque, participando ativamente de suas discussões e formulações de vanguarda.

Foi o crítico de arte mais destacado na luta pela imposição do cubismo, cuja estética defenderia em dois textos, ambos de 1913: Méditations esthétiques. Les Peintres cubistes (Meditações estéticas. Os pintores cubistas) e L´Antitradition futuriste (A antitradição futurista). Pouco depois de publicar seu primeiro livro de poesia, Le Béstiaire ou Cortège d,Orphée (1911; O bestiário ou cortejo de Orfeu), Apollinaire envolveu-se em ruidoso escândalo, sob acusação de pertencer a um grupo que teria roubado algumas estatuetas do Museu do Louvre.

Foi preso, em decorrência disso, e a experiência de um período de cárcere reflete-se em versos de sua obra-prima, Alcools (1913). O primeiro poema desse livro, “Zone”, é uma profissão de fé modernista que eleva o banal ao plano lírico e declara guerra ao passado, à gramática, à pontuação e à sintaxe.

Em 1914 Apollinaire naturalizou-se francês e engajou-se como voluntário na primeira guerra mundial. Em 1916, ferido gravemente na cabeça, foi submetido a uma trepanação mas não parou de escrever. Autor prolífico, grande parte de sua obra só viria a ser publicada após a morte. Em 1964 surgiu a edição de Les Diables amoureux (Os diabos enamorados).

Sua peça Les Mamelles de Tirésias (As tetas de Tirésias) voltou à cena com sucesso em 1947, após breve temporada em 1918. Cinco mulheres participaram de modo destacado da vida do poeta, a começar pela inglesa Annie Playden, inspiradora da famosa “Chanson du mal-aimé”, passando pela pintora Marie Laurencin – de “Zone” e “Pont Mirabeau” – e as musas do tempo da guerra: Lou (Louise de Coligny-Châtillon), Madeleine Pagès (de quem ficou oficialmente noivo) e Jacqueline Kolb, a “jolie rousse” do último poema de Calligrammes, poèmes de la paix et de la guerre, 1913-1916 (1918; Caligramas, poemas da paz e da guerra, 1913-1916).

Casou-se com esta última em 1917, tendo como padrinho Picasso. Em Calligrammes, outro de seus livros fundamentais, estão traçadas as linhas mestras do concretismo, que surgiria décadas depois. A antevisão do surrealismo ocorreu ao poeta num manifesto de 1918 em que ele fala de uma nova poética dentro de uma nova desordem.

Guillaume Apollinaire morreu em Paris em 9 de novembro de 1918, vitimado pela gripe espanhola.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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