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SENTIMENTAL, EU SOU

MIRANDA SÁ (Email: mirandasa@uol.com.br)

Roubei o título do romântico bolero de Altemar Dutra para desenvolver uma tese levantada por Graciliano Ramos fazendo uma auto análise: “considerando que me comovo em excesso, por natureza e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões”.

Eu tinha uma certa prevenção pela Astrologia e ignoro tudo sobre os signos, mas ouvi dizer que o sentimentalismo é produto da influência astral e passei a refletir sobre isto; se a Lua intervém no fluxo das marés, então é normal crer que a constelação de Câncer – que rege as minhas tendências –, impõe meu sentimentalismo.

Quando menino buchudo ouvia o Realejo da Adivinhação tocar na minha rua e as meninas-moças correrem pagarem um cruzeiro para o periquitinho, domado pelo velho cigano, entregar-lhes com o bico um cartão com o nome do futuro marido.

Não sei dizer se a expressão “o passarinho verde me contou…” vem daí. Procurei nos dicionários de gíria e expressões populares e não encontrei “passarinho verde”; achei no livro Locuções Tradicionais do Brasil do folclorista norte-rio-grandense Câmara Cascudo, uma referência ao periquito, usado antigamente para troca de bilhetes entre os amantes.

Há também uma lenda do século 19, segundo a qual as moças se correspondiam com os namorados amarrando mensagens de amor nas patinhas de um passarinho que pousava na grade da janela. A ave associada a esta lenda seria o periquito.

Das nossas heranças culturais temos a locução “viu passarinho verde” com o significado de quem se encanta por algo ou alguém que acabou de encontrar; a cor das penas da ave evoca uma alegre esperança.

No tempo de Graciliano, quando vigorava estes costumes, não se precisava estudar a biologia corporal nem deitar no sofá do analista para a psicanálise, como fazem hoje sem dia sem o realejo do cigano e com os periquitos engaiolados nos jardins zoológicos.

A realidade amplia problemas de bem-aventurança, desgostos e até desatinos, mais não nos levam às análises laboratoriais. E, na vida social, se limita a manjada teoria de que a Lei é para todos, para todos nós – sem exceção –, deixando-nos sujeitos ao comando invisível e insípido do respeito à Justiça.

Ou cumprindo prognóstico dos nossos signos? Tenho cá as minhas dúvidas, porque ao me valer do exemplo teórico da Lei, a experiência vivida lembra-me que a sua interpretação é desigual, relativa e seletiva…. Os excelentíssimos juízes vacilam entre o apelo da família de um réu e o patrimônio de outro.

Sabemos que a Justiça é aplicada por seres humanos e se submete ao humor do juiz, oscilando entre cegueira, surdez e a impiedade; é por isto que suprime a ideia de punir os crimes hediondos com a pena de morte….

Lembramos que as punições na Antiguidade (e ainda vigoram em alguns países) obedecem a uma escala baseada no “olho por olho e dente por dente”; têm a morte para o assassino, a amputação das mãos para ladrão, e chibatadas em público para os crimes menores. Para os corruptos a desapropriação dos seus bens.

Como condenavam os ocupantes do poder que se apossavam do bem público? Como puniam os que atentavam contra as instituições para se locupletar? Vamos à pesquisa histórica para saber; mas “um passarinho me contou” (e a informação me parece verdadeira), que existe uma conspiração civil e militar punitiva contra o governo Lula, sem a presença nefasta de Bolsonaro.

Seria a reação natural contra os desmandos de um governo ideologizado, superado, não por envelhecimento, mas pela sua inconsequência político-administrativa?

Esta questão me leva ao “Poeminho do Contra” do genial Mário Quintana: “Todos esses que aí estão “Atravancando meu caminho/ Eles passarão…Eu passarinho!”, e inspirado poeticamente abro meu bico para rogar uma praga aos polarizadores populistas que sabotam a paz, a ordem e o progresso do Brasil.

Sentimental, mas com muita paixão, eu gostaria que Bolsonaro e Lula recebessem o castigo do desprezo popular como punição, e fossem acompanhados nesta sentença pelos juízes garantistas e os políticos picaretas.

Os brasileiros estão fartos de uma Política e uma Justiça a serviço da corrupção e dos conhecidos corrompidos, corruptos e corruptores.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu

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