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Publicado 2 feira n’ O Jornal de Hoje

Lei congela a língua portuguesa falada no Brasil

MIRANDA SÁ, jornalista

E-mail: mirandasa@uol.com.br

Parece piada de português esta idéia retorcida de disciplinar um idioma por imposição legal. A tal reforma ortográfica, evidentemente, não é dirigida para a ampla maioria das populações das nações lusófonas, mas aos seus letrados.

A injunção das elites oficialistas do Brasil e de Portugal é mais uma demonstração da falta de cultura reinante nos dois países. Nos salões alcatifados do poder, falsos intelectuais, acadêmicos politiqueiros e burocratas da cultura nunca aprenderam que a língua falada é que determina a ortografia.

Gravitando as esferas do poder, os reformistas ortográficos – que dispõem de assessores, redatores e revisores às pencas – ignoram a voz do povo (que é a voz de Deus), a linguagem coloquial popular que é simples e direta, fazendo-se entender em todos os setores da atividade humana.

Do Oiapoque ao Chuí, do Acre ao Rio Grande do Norte, traçando a grande cruz da nacionalidade brasileira, o redigir é uma tarefa restrita a poucos, e ainda mais reduzida quando se trata dos que trabalham na Comunicação Social.

Advogados, funcionários públicos e magistrados adotam uma redação específica, com uma terminologia limitada, quase um clichê. Escritores, jornalistas e publicitários, ao contrário, estão obrigados a garimpar as palavras peculiares ao povo, a gíria, os regionalismos, a terminologia dos profissionais, dos artistas e os conceitos próprios das massas urbanas e camponesas.

Os comunicadores não ficarão congelados no freezer da língua oficial feita por uma falsa elite que não se capacitou, ela própria, a grafar a fala do seu povo. A expressão escrita é para se fazer entender por todos através das palavras faladas por todos.

Embora a leitura não alcance a pluralidade populacional, o comunicador sabe que a palavra escrita é transmitida pelos que têm o privilégio de interpretar a linguagem escrita. E me enche de medo de como um leitor comum irá traduzir a palavra SABIA, sem qualquer acento.

Como o leitor comum lerá? Sabiá? Sabia? Sábia? Sem o acento agudo vai ficar difícil aclarar o sentido da palavra. No caso do trema, então, vai atrapalhar a pronúncia de LINGÜIÇA; falaremos linguiça tal qual enguiça?

Há também um novo vocabulário surgindo com a emissão, transmissão e recebimento de mensagens via Internet. Os internautas são hoje uma respeitável e poderosa fração no sistema das relações humanas.

O palavreado dos internautas é uma expressão inversa à da gíria. Esta surge espontaneamente em certos grupos sociais e, quando “cola”, se espalha com uma velocidade assombrosa e se dicionariza; o “internetês” se expande por abreviações digitadas às pressas e terminam chegando à oralidade.

Não sei se os lingüistas (com trema) associados aos editores e industriais dos livros levarão em conta a realidade brasileira. Seu argumento mais valioso é de que tal reforma está programada para três gerações seguintes; o que não tem sentido por causa da dinâmica da fala humana. Assim, nós não vamos fingir que acreditamos na mumificação do idioma.

Estamos com o genial sambista Noel Rosa quando, na sua composição “O Cinema Falado” diz “tudo aquilo que o malandro pronuncia/ com voz macia/ é brasileiro/ já passou de português”.

De qualquer maneira, há uma única coisa que legalizou uma manifestação popular: o reconhecimento das letras “k”, “w” e “y”, por demais conhecidas e profusamente usadas, principalmente nos nomes das novas gerações de meninas e meninos por este país afora…

Miranda Sá

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