Categorias: Notas

Poesia

DESCUIDO DO DIVERTIDO VIVER A QUEM

A MORTE CHEGA IMPREVISTA

Viver é caminhar breve jornada,

e morte viva é, Lico, nossa vida,

já no frágil corpo amanhecida,

cada instante no corpo sepultada.

Nada que, sendo, é pouco, e será nada

em pouco tempo, que ambiciosa olvida;

pois, da vaidade mal persuadida,

almeja duração, terra animada.

Tomada de enganoso pensamento

e de esperança burladora e cega,

tropeçará no mesmo monumento.

Como quem, divertido, o mar navega

e, sem mover-se, voa com o vento,

e antes que pense em acercar-se, chega.

Francisco de Quevedo

(Tradução: Claudio Daniel)

O Poeta

De uma família fidalga, a infância de Quevedo passou-se na Corte, onde os pais desempenhavam altos cargos. O pai, Francisco Gómez de Quevedo, era secretário da princesa Maria, esposa de Maximiliano da Alemanha, e sua mãe, María de Santibáñez, era camareira da rainha.

Rapaz ainda, sobredotado intelectualmente, mas de pés disformes, coxo de uma perna, gordo e curto de vista, tornou-se órfão aos seis anos de idade, refugiando-se nos livros que consultava no Colégio Imperial dos Jesuítas de Madrid.

Em 1596 frequentou a Universidade de Alcalá de Henares. Aproveitou para aprofundar os seus conhecimentos em vários ramos, como em filosofia, línguas clássicas, árabe, hebreu, francês e italiano. Em Valladolid, onde acompanhou a corte quando esta foi mudada por ordem do Duque de Lerma, estudou também teologia – mais tarde produziria também algumas obras teológicas, como o tratado contra o ateísmo Providencia de Dios.

Já nessa altura destava-se como poeta, figurando na antologia de Pedro Espinosa Flores de poetas ilustres (1605), ainda que o conjunto da sua obra tenha sido editado postumamente, e sendo classificada dentro do Conceptismo Barroco.

Miranda Sá

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