O MORTO
Por que celeste transtorno
tarda-me o cosmo do sangue
o óleo grosso do morto?
Por que ver pelo meu olho?
Por que usar o meu corpo?
Se eu sou vivo e ele morto?
Por que pacto inconsentido
(ou miserável acordo)
Aninhou-se em mim o morto?
Que prazer mais decomposto
faz do meu peito intermédio
do peito ausente do morto?
Por que a tara do morto
é inserir sua pele
entre o meu e o outro corpo.
Se for do gosto do morto
o que como com desgosto
come o morto em minha boca.
Que secreto desacordo!
ser apenas o entreposto
de um corpo vivo e outro morto!
Ele é que é cheio, eu sou oco.
Biografia de Paulo Mendes Campos aqui
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