Categorias: Poesias

Paulo Mendes Campos

O MORTO

Por que celeste transtorno

tarda-me o cosmo do sangue

o óleo grosso do morto?

Por que ver pelo meu olho?

Por que usar o meu corpo?

Se eu sou vivo e ele morto?

Por que pacto inconsentido

(ou miserável acordo)

Aninhou-se em mim o morto?

Que prazer mais decomposto

faz do meu peito intermédio

do peito ausente do morto?

Por que a tara do morto

é inserir sua pele

entre o meu e o outro corpo.

Se for do gosto do morto

o que como com desgosto

come o morto em minha boca.

Que secreto desacordo!

ser apenas o entreposto

de um corpo vivo e outro morto!

Ele é que é cheio, eu sou oco.

Biografia de Paulo Mendes Campos aqui

Marjorie Salu

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Marjorie Salu

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