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MÚSICA DE CARNAVAL, QUE HORROR!

É realmente um crime o que vem sendo feito com a nossa música popular. Durante o ano todo, nossos ritmos são preteridos nos nossos veículos de comunicação, pela cultura de consumo importada, com a simplória alegação de que o público prefere os ritmos da moda, sem darem importância ao fato de que quem lança a moda são os próprios veículos de comunicação.

Aí, chega o carnaval, quando (por enquanto) só se toca música brasileira. E o que se vê é um horror. Pia na parada cada música de entortar o patuá. Fica difícil de se acreditar que um produtor de disco ou um diretor artístico de gravadora, ou um editor permita que músicas de mau gosto tremendo entrem no mercado.

E no entanto, elas entram. E vêm assinadas às vezes por cinco ou seis parceiros. Tem marchinhas de uma mediocridade atroz, que têm seis ou sete parceiros, o que nos dá a impressão de que foi necessário seis ou sete idiotas pra conseguirem uma marchinha de tão baixo nível. Mas, essas parcerias se explicam. Assim como se explica a bagulheira gravada para o carnaval.

Malandro faz a moda. Otário paga por ela.

Os editores de música de carnaval (são vários pra cada gravadora ) só deixam entrar no álbum os compositores que concordem em assinar um contrato em que cedam 33% dos direitos autorais de vendagem e execução pra editora e concordem em nunca pedir conta sobre essa percentagem. Editada a música de carnaval, começa a batalha cavernosa pra gravação. São dez mil compositores disputando uma vaga entre doze ou treze do disco.

Sai faísca nessa guerra. Vale qualquer trampolinagem. E têm inicio as parceradas. O compositor tem que arrumar um parceiro com influência na gravadora, senão não entra no disco. Caso escolha o parceiro certo, o compositor, independentemente da qualidade da sua música, ganha o direito de gravar. Tem então que arrumar cantor e orquestra. Como compositor quase sempre não tem onde cair morto, a solução é arranjar mais dois parceiros.

Um pra cantar e outro pra pagar os músicos. Gravada a música, resta fazer com que ela seja tocada. E sempre aparece um disc-jokey pra entrar na parada e um catitu pra correr baile pedindo pra maestro marcar a música na plaqueta das executadas durante o baile, mesmo que ela não seja tocada. Essa tarefa exige muito trabalho e é preciso muita conversa e grana pra subornar chefe de orquestra.

Compositor de música popular brasileira é imortal. Nunca tem onde cair morto.

Gafieira, boate ou clube considerado da classe A (essa classificação nada tem a ver com categoria e, sim, com os convênios das sociedades arrecadadoras) paga, durante os bailes de carnaval, Cr$ 54,00 cada vez que uma musica é tocada. Os chefes de orquestra cobram do compositor catitu dono de bagulho do ano CR4 30,00 cada vez que tocar sua musica.

Quer dizer que sobra CR$ 24,00 pro compositor. Descontando a porcentagem da sociedade arrecadadora, da gravadora e da editora, sobra nada pra dividir por seis ou sete parceiros. Mas, mesmo assim, tem compositor de carnaval que em junho, quando são prestadas as contas, recebe CR$ 150.000,00, CR$ 200.000,00 de direitos autorais.

Não se pode dizer que compositor de carnaval não tenha vergonha na cara. Eles tem tanta vergonha das musicas que fazem, que sempre gravam com pseudônimo.

Música de carnaval era um bom negócio pro disc-jokey, até que as rádios descobriram que a grana do compositor tinha influência no gosto deles, ao ponto de fazê-los tocar até duas vezes no mesmo programa músicas horríveis. Aí, já viu. As rádios acabaram com os programas carnavalescos.

E continuaram, até nos três dias de carnaval, tocando música estrangeira ou então passaram a cobrar diretamente do compositor de carnaval pela execução de sua música. Como se música de carnaval fosse um anúncio qualquer. A única providência que os diretores artísticos não tomaram pra se garantir foi despedir os disc-jokey desonestos.

Programa de música de carnaval no rádio brasileiro só mesmo depois que as crianças forem dormir. Antes das dez, só toca música estrangeira. Estão emprenhando nossas crianças pelas orelhas com cultura de consumo importada.

Os músicos brasileiros que passam o ano inteiro sem ter mercado de trabalho, isso porque as boites e inferninhos atacam na base do toca fitas, que são na grande maioria importadas, quando chega o carnaval querem faturar alto. Até aí tudo bem. Sabe como é que é. A vida anda custando os olhos da cara e cobra que não anda não engole sapo.

Mas acontece que os músicos em vez de desapertarem em cima dos empresários que os deixam na sombra o ano todo, não. Ferram é o compositor de carnaval. Cobram pra tocar marchinhas e sambas do ano. É um horror.

Plínio Marcos (29.09.1935-05.02.1975)

Marjorie Salu

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Marjorie Salu

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