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Morte na casa do Big Brother

Como no mundo inteiro, o programa de televisão Big Brother pegou também aqui no Reino Unido.

Há gente que chame de “reality show”. Ou “televisão realidade”. Praticamente não há dia e não há canal em que uma de suas variações não esteja exposta aos olhos para visitação pública.

A realidade é ubíqua. E barata. E meio degradante. Deu-se, nos tablóides mais fuleiros, a ampla cobertura dessa vasta fraternidade, incapaz inclusive de chegar perto de um infame jogo de palavras como o que precedeu esta sentença.

Uma cultura de celebridades, vamos aspear isso, “celebridades”, ou “celebs”, como abreviaram aqui, tomou conta do país – do mundo? — desde o início deste século. Diante da tela de TV, brincava-se, em casa, de odiar, admirar ou ser indiferente a este ou aquele outro candidato. Faturou-se alto com a brincadeira. Decaiu na mesma proporção a qualidade da televisão britânica. E de outros países.

Em 2002, na terceira série do Big Brother daqui, surgiu um esporte no país: odiar uma mulher. Jade Goody. Grossa, exclamativa, ignorante, desaforada, opinativa e, ainda por cima, fisicamente horrenda, talvez o mais imperdoável numa candidata. Chegou a ganhar o apelido de “Pig Woman”, a mulher porco, dada a sua semelhança com o animal em questão.

Chegou em quarto lugar. De assistente de dentista, Jade Goody passou, apesar, ou devido, à sua ignorância, a ganhar uma fortuna. Armada de agente e cafonérrima disposição, assinou um sem número de contrato com jornais e revistas. A mídia está sempre à espreita de uma estupidez que se permita faturar barato. Caixinha, obrigado!

Jade Goody, com sua boa dose de limitações físicas, chegou a abrir salão de beleza próprio, o “Ugly’s” – “Feiura”, digamos assim. Tentou lançar um perfume e uma autobiografia no mercado.

Em janeiro de 2007, Jade Goody participou de um derivado do Big Brother, o Celebrity Big Brother, onde trocou desaforos com uma atriz indiana e demonstrara ser racista. Mal sabia o que era e onde ficava a Índia. Mal sabia o que era ser racista.

Foi expulsa da “casa” por uma esmagadora maioria de 82% do público eleitor. Sua tentativa de comercializar um perfume e lançar uma autobiografia foi prontamente abandonada.

Jade Goody teve dois filhos. O pai morreu de overdose de heroína aos 42 anos de idade.

Em janeiro do ano seguinte, 2008, Jade Goody participou do Big Boss, versão indiana do Big Brother. Teve de abandonar a competição quando testes feitos algum tempo antes revelaram que ela estava com câncer do colo uterino. Agora, em fevereiro deste ano, seu agente revelou que os médicos desenganaram Jade Goody. O câncer se espalhou e ela tem apenas uns poucos meses de vida.

Jade Goody deixa-nos como chegou: em meio a um bombardeio publicitário. Canalizou sua sede de fama de todos os modos possíveis, disposta a faturar o máximo que puder. Para prover seus dois filhos. Segundo seu agente, para tornar também as mulheres mais conscientes da necessidade de exames uterinos regulares.

Houve, em todo país, num curto espaço de tempo, um aumento de 20% no número desses testes.

O jornal The Guardian publica em todas as suas edições um terceiro editorial que vem precedido das palavras “Em louvor de…”. Nesta semana, louvaram, por tabela, aquela que já foi, dizem, a “mulher mais odiada do país”, Jade Goody. Louvaram, na verdade, e estas as palavras que se seguem ao louvor: “A maneira britânica de morrer”.

Pinço e cito alguns trechos:

“Sob certa luz, Jade Goody é a vítima quintessencial da cultura moderna midiática…” (…) “Ela é a personificação de uma década cuja ética amoral chega também ao seu fim: anos de viver agora e pagar depois…” (…) “No fim das contas, todos nós morreremos. Neste país, a cada ano, 575.000 mortes têm lugar em silêncio e em privacidade. As venezianas se cerram, as portas são fechadas, distantes do que já se chamou de olhares curiosos.

Segue-se o enterro, geralmente discreto. O cidadão médio britânico é cremado por trás de cortinas e não há qualquer cerimônia pública. (…) Os rituais do luto e dos cemitérios públicos deixaram de fazer parte do vida moderna. Hoje, a mortalidade é tão finita quanto antes, mas, de certa forma, passou a ser quase marginalizada. À sua maneira, Jade Goody está fazendo alguma coisa para corrigir nossa enganadora negação da morte.”

Fonte: BBCBrasil.com/Ivan Lessa

Marjorie Salu

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