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Lula sobre a farra das passagens: ‘Sempre foi assim’

No primeiro mandato, só de raro em raro Lula falava com os repórteres.

Reeleito, prometera amiudar as entrevistas. Cumpriu o compromisso.

Agora, fala mais do que o homem da cobra, como se diz.

Dispensou a pompa das grandes coletivas.

Prefere a informalidade da entrevista picada.

São raras as aparições em que não diga meia dúzia de palavras.

Tornou-se íntimo dos gravadores, afeiçoou-se aos microfones.

A tal ponto que já começa a jogar conversa fora.

Lula porta-se sob os holofotes como se estivesse numa mesa de bar.

Dias atrás, na saída de um velório, no Recife, veio com uma conversa mole.

Pôs-se a desancar o aparato de fiscalização do Estado.

Disse que a vigilância, por excessiva, atrapalha o andamento das obras.

Nesta quinta (30), repetiu o lero-lero, dessa vez no Rio.

Afirmou que, submetido à sanha fiscalizatória, JK não teria feito Brasília.

Pois bem, neste 1º de Maio, Lula resolveu posicionar-se sobre a “farra aérea”.

Disse que há “hipocrisia” na forma como a imprensa aborda o tema.

Chegou mesmo a sugerir a criação do “dia nacional da hipocrisia”.

Saiu em defesa dos congressistas que se lambuzaram na cota de passagens.

Admitiu que, na sua época de deputado, também cedeu bilhetes a terceiros.

“Eu, muitas vezes, convoquei dirigentes da CUT e de outras centrais para se reunirem, com passagens no meu gabinete”.

“Sempre foi assim. Não vejo onde está o tamanho do crime em levar a mulher ou o sindicalista para Brasília”.

Na véspera, dissera algo semelhante: “Eu não sei porque vocês vendem como novidade o que acontece na Câmara…”

“…Qual é a novidade que vocês descobriram? Que um deputado utiliza passagem? Isso é utilizado desde que o Congresso é Congresso, gente”.

Acha certo que parentes e amigos viagem nas asas da Viúva? “Não acho correto, mas não acho crime dar passagem para outra pessoa…”

“…O problema do Brasil não é esse […]. Esse não é o mal do Brasil. Se o mal do Brasil fosse esse, o país não teria mal”.

O “sempre foi assim”, imprudência verbal dos parlamentares que Lula incorporou ao seu discurso, serve de defesa aos malfeitores.

A expressão remete ao axioma segundo o qual os políticos são todos iguais. “Farinha do mesmo saco”, na linguagem das ruas.

O raciocínio é irmão gêmeo do “todos os partidos fazem”, invocado por Lula quando o ex-PT foi pilhado no maravilhoso mundo do caixa dois.

“A imprensa está dando dimensão demais para uma coisa que pode ser corrigida pela Mesa”, disse Lula sobre a estripulia das passagens aéreas.

“Isso já está na imprensa há mais ou menos um mês. Temos coisas importantes para discutir e aprovar no Congresso Nacional”.

Esquece-se de um detalhe: foi o desgaste do noticiário longevo que empurrou as Mesas da Câmara e do Senado para a mudança de procedimentos.

Do contrário, o país conviviria com um perpétuo “sempre foi assim”.

A construção da democracia supõe saber distinguir diferenças. O Brasil não construirá a sua enquanto não deixar de acreditar que é tudo a mesma coisa.

O Lula de ontem enxergava no Legislativo um magote de “300 picaretas”. O Lula de hoje serve-se da picaretagem.

Joga a sorte do seu governo num modelo de Congresso em que fluem as trocas de favores, os privilégios, os empregos e as verbas.

Sempre foi assim, bolas. Todo governo faz, caramba.

Se não deseja contribuir para eliminar o inaceitável, Lula talvez devesse calar.

Abordado pelos repórteres, pode recorrer ao que os ingleses chamam de “small talk”.

É a conversa fora de todos os dias. “Chove, não? Faz um belo dia de Sol, não acha?

Corre o risco de ser apontado como vítima de paralisia mental.

Mas  cusado de confundido com um paralítico mental.

Livra-se, porém, da pecha de tolo. Ou, pior: cúmplice de malfeitores.

Com alguma sorte, pode colher um elogio do Romário: “Calado, o Lula é um poeta”.

Fonte: Blog do Josias de Souza

Miranda Sá

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