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Dois velhinhos doentes

Era uma vez, aqui no Reino Unido, um velhinho doente. Frágil e mal conseguindo se comunicar com o mundo. Este velhinho era um criminoso. Há algumas décadas cometera atentados contra seus semelhantes.

Apesar de sua fragilidade física, não dava sinal de qualquer arrependimento. O que passou, passou, conforme pensava. Ele sé queria uma coisa: liberdade. Liberdade para terminar seus dias no seio de sua família, junto aos seus entes queridos.

Muitos levantavam objeções contra sua libertação alegando que o velhinho deveria morrer sob custódia devido à natureza de seus crimes. No que intervém o então, e até hoje ministro da Justiça, Jack Straw, membro do governo a quem cabia uma decisão sobre o futuro do velhinho.

O ministro mostra piedade e permite que o velhinho vá usufruir do pouco de alegria no tempo que lhe sobra de vida no seu país natal, junto à família e amigos. Era como se tivesse, guardada junto ao passaporte, uma carteirinha de arrependimento.

Sim, claro, era o general Augusto Pinochet. No ano 2000, aqui detido a pedido de vários países, principalmente a Espanha, onde as autoridades judiciárias locais exigiam sua extradição para julgamento de crimes contra a humanidade, por sua participação e responsabilidade em pelo menos a morte de 3 mil conterrâneos, sem falar na tortura contra algumas milhares de outras pessoas.

Não bastasse, acusavam-no ainda de derrubar um governo legítimo, eleito pelo povo, e, mais, saquear as reservas monetárias nacionais do Chile. O ministro Jack Straw, no mesmo ano de 2000, recusara-se a dar asilo político a um refugiado do sistema ditatorial de Saddam Hussein, alegando “ter toda confiança na integridade do sistema judiciário iraquiano.” Um sistema com, digamos, carteirinha de integridade.

Era uma vez outro velhinho. Assim como o primeiro velhinho, Pinochet, também este estava doente, frágil, beirando a senilidade nos seus quase 80 anos de vida. Um criminoso também. Criminoso condenado. Pegara uma pena até então, anos 60, inédita no Reino Unido: 30 anos de prisão, dos quais servira 10 antes de escafeder-se.

Ronald Biggs. Ele mesmo. Biggs teve uma participação menor no que é tido como o maior assalto a um trem pagador de todos os tempos: aquele que, em 1963, fazia o percurso de Glasgow a Londres. Os bem organizados assaltantes – pareciam até militares chilenos, só que menos violentos – safaram-se com uma quantia em papel moeda até então também inédita: 2,6 milhões de libras, o equivalente, mais ou menos, em dinheiro de hoje, a uns bons US$ 56 milhões.

Praticamente não houve violência. Praticamente. O condutor do trem, Jack Mills, resistiu e levou uma pancada na cabeça. Pegou hospital. Morreu de leucemia, e não de assalto de trem, sete anos depois.

Biggs, que todo brasileiro conhece a história, e muitos pagaram para ouvir, cansou-se do exílio em Santa Teresa e resolveu vir morrer na Grã-Bretanha, após 30 anos. Todos esperavam um perdão, a liberdade condicional. Jack Straw fez questão de vir a público e, de suas alturas, recusar. Alegou que Biggs não mostrou o “devido arrependimento”. Biggs não tinha pois em sua bagagem uma carteirinha de arrependimento.

Babando e se arrastando, balbuciando coisas sem sentido, Biggs continua preso. Não teve a sorte, ou o tirocínio, de assaltar e matar um país inteiro, como o general Augusto Pinochet.

A família de Biggs vai recorrer. A família do ditador chileno até hoje é grata ao ministro Jack Straw e o altíssimo padrão da Justiça britânica, pela qual, em primeira e última análise, é a principal responsável, inclusive, pela distribuição de carteirinhas de arrependimento.

Ivan Lessa, jornalista

(BBC Brasil/Cultura/Entretenimento)

Marjorie Salu

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