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Artigo saído n’ O JORNAL DE NATAL

Dos heróis e caras-pintadas aos caras-de-pau

MIRANDA SÁ, jornalista (mirandasa@uol.com.br)

Estas memórias devem estar nos anais da UNE como está na minha mente e no meu coração. Recordo que atuei no movimento estudantil nos anos 50 do século passado, como secundarista militando na AMES e como acadêmico de Direito no CACO e na UME.

Na UNE, quando José Batista de Oliveira Júnior elegeu-se presidente e Lindenberg Farias (pai do segundo Lindenberg, prefeito de Nova Iguaçu – RJ), foi secretário-geral, dirigi a revista Movimento; e, na gestão seguinte, em que o potiguar Dalton Cunha assumiu a secretaria-geral, fui conselheiro representando a UME.

Além da saudade de uma juventude sadia e idealista, trago recordações agradáveis daqueles tempos risonhos e francos. Época em que reagiríamos ferozmente se algum político tentasse nos subornar e morreríamos de vergonha se um colega fosse seduzido por benesses governamentais.

A única coisa que nos fascinava era o sonho de um Brasil grande, independente e justo; nossas divergências giravam em torno do caminho a seguir para materializar o sonho daquele futuro radioso. Todas as veredas da esquerda levavam a roma-amor.

Éramos pobres, enfrentávamos dificuldades, mas éramos livres, sadios politicamente e. conscientes do que queríamos.  Enfrentamos a ameaça contra a posse de Juscelino, aplaudimos o “retorno aos quadros constitucionais vigentes” do general Lott e demos apoio crítico da JK.

Aqueles momentos históricos fortaleceram o movimento estudantil. A Campanha da Legalidade e o heroísmo de Brizola, a posse de Jango e o golpe de 64, que abriu as baterias contra a UNE, furiosamente depredada por fascistas e mercenários. Inúmeros líderes estudantis foram perseguidos, presos e jubilados.

Muitos saíram das prisões para a resistência democrática. Muitos, desesperados, caíram na clandestinidade e aderiram ao foquismo guerrilheiro.

Pela honra dos que tombaram os que mantiveram a bandeira da UNE na clandestinidade subsistiram sem ceder ao regime de exceção. Na ilegalidade, elegia seus dirigentes e fortalecia a oposição parlamentar. Em 1968, o golpe dentro do golpe, o sangue dos estudantes voltou a ser derramado.

A resistência armada cooptou os mais ousados. Os jovens perturbaram a ordem, subverteram conceitos e aprenderam a se organizar. À atividade guerrilheira, correspondeu uma frente legal disposta e inteligente, capacitada para conduzir o processo político.

Com a ditadura desgastada, a intelligentsia militar curvou-se à realidade; e ajustando-se com a oposição parlamentar, para assistir a anticandidatos presidenciais e a conseqüência imediata deste ânimo, a campanha das “diretas já”. Toda essa movimentação contou com a presença dos estudantes.

A redemocratização testou a UNE e sua militância; ressuscitando com o impeachment de Collor os protestos de rua e o surgimento agressivo dos caras-pintadas, sob aplauso da nacionalidade.

Um apagão nas minhas informações não me permite saber quando e como teve início a burocratização do aparelho estudantil. Hoje, tristemente, ouço falar “dos milhões que compraram a UNE”, insinuações que adquiriram foro de verdade no último congresso, onde o aplauso a Lula e o apoio eleitoral a Dilma, sufocaram de denúncia e o combate ao patrimonialismo e à corrupção enfocada no Senado.

Os desvios se explicam pelo controle da entidade que só este ano recebeu repasses na ordem de R$ 2,5 milhões do governo. A peso de ouro, o atrelamento a projetos político-partidários deslustra o passado glorioso da UNE e transforma os caras-pintadas em caras-caiadas. Melhor assim do que falar de caras-de-pau…

Miranda Sá

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