Não querem que a mulata seja “a tal”…
MIRANDA SÁ, jornalista
E-mail: mirandasa@uol.com.br
Entre os índices de desigualdade brasileiros, o acesso ao ensino público gera de muitas polêmicas. Metem-se na discussão movimentos sociais, profissionais da educação, alunos, pais, mídia e anti-mídia, porque é um tema que interessa a todo mundo.
Mil e um argumentos surgem no debate como cogumelos após a chuva. A maioria não se aprofunda na questão cada um puxando brasa para “sua” sardinha, e o restante não tem base científica.
Os mais egoístas são os auto-proclamados arautos da comunidade acadêmica. Para surfar na onda, meia dúzia de três ou quatro professores aproveita-se da maioria acomodada e silenciosa para agitar o problema das cotas em nome de um racismo inexistente.
Ou melhor, está sendo implantado no país um racismo às avessas, arremedando costumes norte-americanos, onde a mestiçagem praticamente não existiu e a segregação favoreceu o surgimento do afro-americanismo.
No Brasil escravocrata teve início a miscigenação – com louvores ao colonizador português. Prolífero, o lusitano instituiu a mancebia com negras e índias, tornando corriqueiras as uniões inter-raciais que produziam filhos de brancos com negros, negros com índios, mulatos com brancos e brancos com índios.
Esta base miscigenada derrubou o racismo como foi (e ainda é) praticado nos Estados Unidos e na África do Sul. No Século 19, mais precisamente em 1842 (há apenas 166 anos, não faz tanto tempo assim), o reverendo escocês, Pascoe Grenfell Hill, visitando ao Rio de Janeiro, registrou no seu diário que a população negra era majoritária.
E era realmente. Viviam na capital do império mais de 700 mil “homens de cor”, cabindas, rebolos, monjolos, minas, cassanges, quiloas e moçambiques; e também, em grande número, cafusos, mulatos e pardos, além de remanescentes índios e os brasileiríssimos mamelucos.
Nessa época, a emigração portuguesa para o Brasil ocorria num fluxo contínuo e crescente, e com a chegada dos lusitanos aumentavam os casamentos e relações consensuais com mulheres negras e índias, escravas ou forras. Sobre isto temos um importante estudo publicado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Escreveram-no os professores Manolo Florentino e Cacilda Machado. É o “Ensaio sobre a imigração portuguesa e os padrões de miscigenação no Brasil (séculos XIX e XX)”, indispensável para o estudo da formação do povo brasileiro. O trabalho registra principalmente a participação da mulher forra como recorrente de mobilidade social e de miscigenação.
Os defensores do racismo às avessas não estudaram ou fingem que não sabem o que menciona a História do Brasil. Eles chegam ao cúmulo de divulgar uma estatística cretina assinalando que 96% dos universitários brasileiros são “brancos”… Onde encontraram tantos brancos nesta terra, pelo amor de Deus!
Semana passada, representantes da sociedade civil participaram de um debate promovido pelo Senado Federal sobre o projeto de lei que prevê a criação de cotas raciais nas universidades federais.
O coordenador do Movimento Nação Mestiça, Jerson Leão Alves, interveio na discussão defendendo a tese de que as políticas de cotas raciais não visam melhorar a vida dos pardos, negros e outros grupos. Para ele, “as cotas raciais já estão gerando conflito racial”.
Esta posição lúcida, dos patriotas que querem uma Nação unida e forte, com um povo convivendo harmoniosamente e se miscigenando, como projetou o inesquecível Darcy Ribeiro, foi alvo de provocações racistas inomináveis. Dignas dos skinheads fascistas.
Ao encerrar a sua intervenção, Jerson Leão declarou-se mulato “com muita honra” e um dos racistas às avessas gritou “mulato é filho de mula”, insulto que repudiado pelo senador Demóstenes Torres que presidia a reunião.
Os racistas às avessas, além de dividir o Brasil em nome de uma virtual convivência entre “brancos” e “negros” – ambos raríssimos neste país miscigenado. Com isso, querem acabar com um patrimônio nacional, a mulata. Que deveria continuar como “a tal”!
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