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Artigo no JH1ªEdição

É uma palavra contra outra palavra

MIRANDA SÁ, jornalista (mirandasa@uol.com.br)

A denúncia da ex-chefe da Receita Federal, Lina Vieira, de que esteve com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, recebendo dela um pedido para “agilizar” as investigações da RF que visavam Fernando Sarney, filho de José Sarney, não é apenas um bate-boca parlamentar.

São declarações que envolvem o comportamento político de uma pretensa candidata à presidência da República, escolhida por Lula da Silva para ser sua sucessora, mantendo o projeto de 20 anos de poder petista traçado por Zé Dirceu, processado pelo STF como chefe do mensalão.

Trata-se de um capítulo da História do Brasil, e não uma discussão de mulherzinhas de ponta de rua, como se falava antigamente, depreciando as desavenças de vizinhança pobre. Tratando-se de duas personalidades nacionais, exige uma acareação, pois Lina afirmou em entrevista à imprensa que “É a minha palavra contra a palavra da ministra”.

A chamada grande imprensa transcreveu com todas as letras a colocação da ex-Secretária da Receita: “O que eu tenho, como eu disse, é a minha palavra contra a palavra da ministra. Eu disse inclusive que não iria atrás de provas, é a minha palavra contra a dela”.

Uma prova sobre a reunião de Dilma Rousseff e Lina Vieira é exigir demais, porque há testemenhas que podem comprovar a afirmativa de Lina. A não ser que a falta de pudor tenha se alastrado como a gripe suína, a secretária-executiva da Casa Civil, Guerra, pode dizer se realmente foi à Receita pedir o encontro das duas.

Lina faz questão de assumir que não há um registro formal, “mas as pessoas viram”. “A secretária que estava lá viu, e ficou registrado, ela viu a entrada e saída” falou Lina na entrevista à Folha de São Paulo. E comenta: “Eu acredito ainda que a palavra da pessoa e a história da pessoa valem. Eu estive lá a convite da ministra, não tirei foto, eu não gravei, foi somente isso. Eu reitero o que disse”.

A verdade é que a candidata de Lula é um instrumento dócil nas mãos dele. Picada pela mosca azul, o carreirismo de Dila amputou-lhe os restos de idealismo juvenil. Sobre essa desfiguração foi observada com desvelo pelo médico paraibano Humberto de Luna Freire Filho.

A réplica do doutor Humberto é pesada. Para ele, a chefe da Casa Civil não tem escrúpulos para elaborar um currículo falso e ainda usa a força do cargo para induzir funcionários de carreira a cometer irregularidades para acobertar falcatruas cometidas por aliados, em prejuízo do Erário, e em benefício de suas pretensões políticas

Nossa advertência se volta para tese de que Lula se aproveitou do amoralismo da ex-guerrilheira para induzi-la de que a defesa de Sarney é um trunfo para as eleições de 2010. Ela apreendeu a insinuação e cumpriu a tarefa.

Mas não foi recusa ou procrastinação de Lina Vieira diante da tentativa de maracutaia o único motivo de sua demissão. Soma-se à resistência em apelegar-se, como quer o lulismo-petismo, o suspeito caso da manobra contábil da Petrobras para sonegar o Fisco, que na realidade foi o leitmotiv da demissão.

Sob a crítica da quase unanimidade dos chefes regionais da Receita, o afastamento de Lina foi uma cena que teve como flash-back o cantochão do ministro Guido Mantega repetindo que a ordem de demissão “veio de cima”. Pela conhecida vaidade do Ministro do Planejamento, “de cima” não seria “de Dilma”, mas “de Lula”.

Miranda Sá

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