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POESIA

Os Morcegos

Os morcegos se escondem entre as cornijas da alfândega.
Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?

A casa de nosso pai era cheia de morcegos pendentes,
como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
“Estes filhos chupam o nosso sangue”, suspirava meu pai.

Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário,
exige o suor do semelhante mesmo na escuridão?

No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.

Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oito irmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.

Ledo Ivo

Poeta, romancista e ensaísta, Lêdo Ivo nasceu em Maceió, Alagoas, em 1924. Fez a sua primeira formação literária no Recife e, em 1943, transferiu-se para o Rio, onde continuou a atividade jornalística iniciado na província. Formado pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, nunca advogou.

Lêdo lvo estreou em 1944, com “As Imaginações”, livro de poemas a que se seguiram “Ode e Elegia”, “Acontecimento do Soneto”, “Ode ao Crepúsculo”, “Cântico”, “Linguagem”, “Um Brasileiro em Paris”, “Magias”, “Estação Central”, “Finisterra”, “O Soldado Raso”, “A Noite Misteriosa”, “Calabar”, “Mar Oceano”, “Crepúsculo Civil” e “Curral de Peixe”.

Como poeta, foi distinguido com o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Cláudio de Souza, do Pen Club do Brasil, o Prêmio Jabuti, o Prêmio de Poesia da Fundação do Distrito Federal e o Prêmio Casimiro de Abreu.
Como memorialista, publicou “Confissões de um Poeta”, que mereceu o Prêmio memória da Fundação Cultural do Distrito Federal e “O Aluno Relapso”.

Em 1982, Lêdo Ivo foi distinguido com o Prêmio Mário de Andrade, conferido pela Academia Brasiliense de Letras ao seu conjunto de obra, O seu livro de ensaios “A Ética da Aventura”, mereceu, em 1983, o Prêmio Nacional de Ensaio do Instituto Nacional do Livro. Em 1986, Lêdo Ivo recebeu o Prêmio Homenagem à Cultura, da Nestlé, pela sua obra poética. Em 1990, foi eleito o Intelectual do Ano pela União Brasileira de Escritores (Troféu Juca Pato).

Ledo Ivo pertence à Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito por unanimidade, e é Comendador da ordem do Rio Branco e oficial da ordem do Mérito Militar.

Marjorie Salu

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Marjorie Salu
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