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Artigo publicado n’ O Jornal de Natal

Mais subsídios à nova História do Brasil

MIRANDA SÁ, jornalista ( mirandasa@uol.com.br)

São poucos, pouquíssimos, os observadores isentos da política brasileira. Há quem saiba mais sobre os partidos e as lutas parlamentares do Império e da 1ª República do que da redemocratização para cá. E até os ativistas políticos de esquerda se escusam a memorizar a História, para escapar de autocrítica…

As esquerdas atuais cometem muitos equívocos. O pior deles é omitir a atuação dos partidos comunistas, social-democráticos e socialistas na resistência à ditadura, seja na ação direta, seja na política parlamentar.

Quando chegou o momento da entrega do poder à sociedade civil pelos militares cansados de segurar um regime autoritário e impopular, o general Golbery do Couto e Silva, condutor do processo, lançou mão do pelego Lula da Silva para enfraquecer o PCB e o PTB.

Criou uma legenda – Partido dos Trabalhadores – atraente para muitos descontentes do movimento comunista e para os trabalhistas, divididos em duas organizações, com o tradicional partido getulista, PTB, ficando com a deputada Ivete Vargas e o PDT com Leonel Brizola.

Foi uma jogada de mestre, que mostrou o acerto do azougado cineasta e intelectual Glauber Rocha ao apelidar Golbery de “o gênio da raça”. Os erros cometidos pela URSS nos tempos da guerra fria, a luta interna do partido, as táticas diferentes de frações partidárias, enfim, a crise internacional dos PPCC, implodiu o Partidão.

Coisa parecida se deu com o antigo PTB, dividido em dois, isolando Brizola como um autêntico caudilho de difícil trato com possíveis aliados. Além disso, debilitado sob uma violenta campanha publicitária.

O diversionismo, que enfraqueceu os comunistas e os trabalhistas, fortaleceu o novo partido, o PT, que atraiu os sindicalistas burocratizados, os resistentes à ditadura vindos das pastorais católicas, os intelectuais obreiristas de São Paulo e a intelligentsia trotskista – ávida por participar da política convencional.

Não foi de graça a convergência para o PT. O jovem partido levantava as bandeiras da ética e da moralidade políticas, a justiça social, recusava aliar-se ao coronelato e não abria mão das denúncias contra a política econômica de favorecimento às oligarquias financeiras nacional e internacional.

Até a eleição de Lula para a presidência da República, o PT assumia ares de organização baseada na democracia orgânica, e de tratar com honestidade a coisa pública. Ainda não pairavam suspeitas de envolvimento da nomenclatura partidária no assassinato dos prefeitos de Campinas e Ribeirão.

Chegar à presidência custou caro aos fundadores do partido. Intelectuais consagrados enojaram-se com a traição programática de Lula e sua camarilha. Carlos Nelson Coutinho, Francisco de Oliveira, Leandro Konder e Plínio de Arruda Sampaio Júnior se afastaram. Militantes aguerridos como Chico Alencar, Frei Beto, e Heloísa Helena, se revoltaram com os rumos traçados.

Na terceira onda de entrega total do PT como refém dos 300 picaretas, a insubordinação passou a ser nojo e desprezo pela defesa de Sarney, abraços em Collor e Renan e a estranha subordinação ao PMDB fisiológico a que Lula se sujeita. Então se afastam duas personalidades marcantes do partido e do Senado: Flávio Arns e Marina Silva.

Este é o capítulo que estamos vivendo e assistindo cenas de escândalos e despudor, convivência com a impunidade e, sobretudo, constatando a generalização da mentira entre os ocupantes do Planalto, usada como arma de defesa e de ataque.

É esta nossa vivência conjuntural com a falsidade dos governantes, que acrescenta mais subsídios à História do Brasil.

Miranda Sá

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