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Paul Verlaine

No Ermo da mata



No ermo da mata o som da trompa ecoa,

Vem expirar embaixo da colina.

E uma dor de orfandade se imagina

Na brisa, que em labridos erra à toa.

A alma do lobo nessa voz ressoa…

Enche os vales e o céu, baixa à campina,

Numa agonia que à ternura inclina

E que tanto seduz quanto magoa.

Para tornar mais suave esse lamento,

Através do crepúsculo sangrento,

Como linho desfeito a neve cai.

Tão brando é o ar da tarde, que parece

Um suspiro do outono.

E a noite desce

Sobre a paisagem lenta que se esvai.

As mãos que foram minhas,

mãos tão bonitas, mãos tão pequenas,

Após tanto equívoco e penas,

Tantos episódios pagãos,

Após os exílios medonhos,

Ódios, murmurações, torpezas,

Senhoris mais do que as princesas

As caras mãos abrem-me os sonhos.

Mãos no meu sono e na minh’alma,

Pudera eu,

Ó mãos celestes,

Adivinhar o que dissestes

A est’alma sem pouso nem calma!

Mente-me acaso a visão casta

De espiritual afinidade,

De maternal cumplicidade

E de afeição estreita e vasta?

Caro remorso, dor tão boa,

Sonhos benditos, mãos amadas,

Oh essas mãos, mãos consagradas,

Fazei o gesto que perdoa!

Paul Verlaine

(Tradução de Manuel Bandeira)

Poesia

O Meu Sonho Habitual

 

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante

Com uma desconhecida, que amo e que me ama

E que, de cada vez, nunca é bem a mesma

Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

 

Porque me entende, e o meu coração, transparente

Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema

Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,

Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

 

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.

O seu nome? Recordo que é suave e sonoro

Como esses dos amantes que a vida exilou.

 

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas

E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda

Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

 

Paul Verlaine

(Tradução de Fernando Pinto do Amaral)

O Poeta

 

Poeta francês (30/3/1844-8/1/1896). Representante do parnasianismo, é também um dos líderes do movimento simbolista na França. Paul-Marie Verlaine nasce em Metz e estuda no Liceu Bonaparte, em Paris. Seus primeiros trabalhos, incluindo Poèmes Saturniens (Poemas Saturninos, 1866), são caracterizados pelo anti-romantismo parnasiano.

Casa-se em 1870, mas deixa a esposa e o filho para viver com o também poeta Arthur Rimbaud. Em 1873 atira no companheiro após uma briga e é condenado a dois anos de prisão. A coletânea Romances sans Paroles (Romances sem Palavras, 1874) é escrita na cadeia.

Entre 1875 e 1877 ensina francês na Inglaterra. Em 1883, já de volta à França, alterna períodos de bebedeira com momentos de lucidez produtiva. Com a publicação de Les Poètes Maudites (Os Poetas Malditos, 1884) e Jadis et Naguère (1884), reaparece no cenário literário francês como poeta simbolista de grande influência.

Para ele o som da poesia é mais importante do que seu significado. Também escreve prosas autobiográficas, como Mes Hôpitaux (Meus Hospitais, 1892), Mes Prisons (Minhas Prisões, 1893) e Confessions (Confissões, 1895). Morre em Paris.

Poesia

A Angústia


 

 

Nada em ti me comove, Natureza, nem

Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,

Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,

A solene dolência dos poentes, além.

 

Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,

Da poesia, dos templos e das espirais

Lançadas para o céu vazio plas catedrais.

Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

 

Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer

Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar

Dessa velha ironia a que chamam Amor.

 

Já farta de existir, com medo de morrer,

Como um brigue perdido entre as ondas do mar,

A minha alma persegue um naufrágio maior.

 

Paul Verlaine

 

(Tradução de Fernando Pinto do Amaral)


 

O Poeta


 

 

Poeta francês (30/3/1844-8/1/1896). Representante do parnasianismo, é também um dos líderes do movimento simbolista na França. Paul-Marie Verlaine nasce em Metz e estuda no Liceu Bonaparte, em Paris. Seus primeiros trabalhos, incluindo Poèmes Saturniens (Poemas Saturninos, 1866), são caracterizados pelo anti-romantismo parnasiano.

 

Casa-se em 1870, mas deixa a esposa e o filho para viver com o também poeta Arthur Rimbaud. Em 1873 atira no companheiro após uma briga e é condenado a dois anos de prisão. A coletânea Romances sans Paroles (Romances sem Palavras, 1874) é escrita na cadeia.

 

Entre 1875 e 1877 ensina francês na Inglaterra. Em 1883, já de volta à França, alterna períodos de bebedeira com momentos de lucidez produtiva. Com a publicação de Les Poètes Maudites (Os Poetas Malditos, 1884) e Jadis et Naguère (1884), reaparece no cenário literário francês como poeta simbolista de grande influência.

 

Para ele o som da poesia é mais importante do que seu significado. Também escreve prosas autobiográficas, como Mes Hôpitaux (Meus Hospitais, 1892), Mes Prisons (Minhas Prisões, 1893) e Confessions (Confissões, 1895). Morre em Paris.


Poesia

Não Me Sinto Mudar


Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.

O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos

cada dia mais raros são os meus cepticismos,

nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias

que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.

Não mudei. É um pouco mais de melancolia,

um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem

cada dia há mais meninas para cada conselho

para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas

os vermes raivosos desfazem a dor,

todos os homens pedem de mais para amanhã

eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante

sentirei a raiva de não estender as mãos

de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia

mas na certeza da crise tardia

farei uma primavera para o meu coração.

Pablo Neruda

(Tradução de Albano Martins)