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Poesia

AFINIDADE


Não é o mais brilhante,

mas é o mais sutil,

delicado e penetrante dos sentimentos.

Não importa o tempo, a ausência,

os adiantamentos, a distância, as impossibilidades.

Quando há AFINIDADE,

qualquer reencontro retoma a relação,

o diálogo, a conversa,

o afeto, no exato ponto

de onde foi interrompido.

AFINIDADE é não haver

tempo mediante a vida.

É a vitória do adivinhado sobre o real,

do subjetivo sobre o objetivo,

do permanente sobre o passageiro,

do básico sobre o superficial.

Ter AFINIDADE é muito raro,

mas quando ela existe,

não precisa de códigos

verbais para se manifestar.

Ela existia antes do conhecimento,

irradia durante e permanece depois que as

pessoas deixam de estar juntas.

AFINIDADE é ficar longe,

pensando parecido a

respeito dos mesmos fatos que

impressionam, comovem, sensibilizam.

AFINIDADE é receber o que vem

de dentro com uma aceitação

anterior ao entendimento.

AFINIDADE é sentir com…

Nem sentir contra, sem sentir para…

Sentir com e não ter necessidade de

explicação do que está sentindo.

É olhar e perceber.

AFINIDADE é um sentimento singular,

discreto e independente.

Pode existir a quilômetros de distância,

mas é adivinhado na maneira de falar,

de escrever,

de andar,

de respirar…..

AFINIDADE é retomar a relação

no tempo em que parou.

Porque ele (tempo) e

ela (separação) nunca existiram.

Foi apenas a oportunidade dada (tirada)

pelo tempo para que a maturação

pudesse ocorrer e que cada

pessoa pudesse ser cada vez mais.

Arthur da Távola

O Poeta

O jornalista, escritor e ex-senador Artur da Távola era homem de vocação renascentista: atuou com brilho em áreas distintas como literatura, política, rádio e jornal – foi colunista de O DIA desde 1987.

Artur da Távola era o pseudônimo do carioca Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros, nascido em 3 de janeiro de 1936. Formou-se em Direito em 1959, mas seu envolvimento com o movimento estudantil o levou, já no ano seguinte, a ser eleito deputado constituinte pelo estado da Guanabara.

Ao longo da vida, publicou 23 livros e comandou programas de jornalismo e música clássica no rádio e na TV. Atualmente, dirigia a rádio Roquette Pinto, que passou por reformulação sob seu comando. Faleceu em 09 de maio de 2008.