Arquivo do mês: novembro 2017

Drummond

A Máquina do Mundo

 

 E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco

 

se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas

 

lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,

 

a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.

 

Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável

 

pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar

 

toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.

 

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera

 

e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,

 

convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas.

 

Trecho de “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.

Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

 

( Ricardo Reis ) heterônimo de Fernando Pessoa

Affonso Romano de Sant’Anna

Assombros

 

Às vezes, pequenos grandes terremotos

ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

 

Entre a aorta e a omoplata rolam

alquebrados sentimentos.

 

Entre as vértebras e as costelas

há vários esmagamentos.

 

Os mais íntimos

já me viram remexendo escombros.

Em mim há algo imóvel e soterrado

em permanente assombro.

Manuel Bandeira

Consoada

 

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

talvez eu tenha medo.

Talvez sorria, ou diga:

— Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com os seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

Castro Alves

Amar e ser amado

 

Amar e ser amado! Com que anelo

Com quanto ardor este adorado sonho

Acalentei em meu delírio ardente

Por essas doces noites de desvelo!

Ser amado por ti, o teu alento

A bafejar-me a abrasadora frente!

Em teus olhos mirar meu pensamento,

Sentir em mim tu’alma, ter só vida

P’ra tão puro e celeste sentimento:

Ver nossas vidas quais dois mansos rios,

Juntos, juntos perderem-se no oceano —,

Beijar teus dedos em delírio insano

Nossas almas unidas, nosso alento,

Confundido também, amante — amado —

Como um anjo feliz… que pensamento!

Pablo Neruda

Soneto LXVI

 

Não te quero senão porque te quero

e de querer-te a não querer-te chego

e de esperar-te quando não te espero

passa meu coração do frio ao fogo.

 

Quero-te apenas porque a ti eu quero,

a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,

e a medida do meu amor viajante

é não ver-te e amar-te como um cego.

 

Consumirá talvez a luz de Janeiro,

o seu raio cruel, meu coração inteiro,

roubando-me a chave do sossego.

 

Nesta história apenas eu morro

e morrerei de amor porque te quero,

porque te quero, amor, a sangue e fogo.

Ferreira Gullar

Agosto 1964

 

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,

mercados, butiques,

viajo

num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.

Volto do trabalho, a noite em meio,

fatigado de mentiras.

 

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,

relógio de lilases, concretismo,

neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,

que a vida

eu compro à vista aos donos do mundo.

Ao peso dos impostos, o verso sufoca,

a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

 

Digo adeus à ilusão

mas não ao mundo. Mas não à vida,

meu reduto e meu reino.

Do salário injusto,

da punição injusta,

da humilhação, da tortura,

do horror,

retiramos algo e com ele construímos um artefato

um poema

uma bandeira

FASCISMO(2)

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Em uma democracia, ninguém sabe o que será o próximo governo. Sob o fascismo não existe nenhum próximo governo. ” (Michael Kalecki)

Este é o “FASCISMO(2)”. Ao escrever o primeiro “Fascismo”, preocupei-me em mostrar a evolução histórica do regime italiano, sua adoção pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e também pelos totalitaristas romenos, húngaros, espanhóis e portugueses.

Agora que a palavra “fascismo” virou figurinha fácil entre os globalistas e seus aderentes, os narcopopulistas bolivarianos, chegou a necessidade de voltar ao assunto, com um título igual ao que foi usado em 2015.

A versão fascista dos nossos dias é o aparecimento global dos “antifas”, grupo criado por intelectuais ligados a Barack Obama nos EUA e, segundo informações, financiado por George Soros. Chegou e se expandiu na Europa, e é caricaturado na América Latina pelos pelegos sindicais e professores obreiristas.

“Antifas” é um termo recém-nascido, formado pelo prefixo grego “anti” (ação contrária) e a derivação precedente de fascismo, “fas”. Tornou-se a sigla do movimento que nos faz lembrar uma profecia de Winston Churchill: “Os fascistas do futuro chamarão a si mesmos de antifascistas”.

Um dos eminentes contribuintes ideológicos do “antifas” nos EUA, é o historiador americano, da Universidade Yale, Timothy Snydere. Se ele não recomendasse a leitura do livro “Harry Porter e as Relíquias da Morte”, de J.K. Rowling, poderia até ser levado a sério por algumas tiradas inteligentes no seu livro “Sobre a Tirania”.

Uma delas é o reconhecimento de que atualmente uma grande massa social tem acesso imediata aos fatos via Internet e interage com a mesma velocidade. Isto, nós, navegadores da web já sabíamos e comprovamos a força das redes sociais sobre o poder.

Noutra abordagem, Timothy, embora defensor do globalismo, reconhece (um tanto timidamente) que já não há um Estado-Nação livre da globalização, e que isto repete historicamente os anos 30 com tentativas de ressurgimento do totalitarismo.

É verdade. Acompanhamos crescimento de ideias favoráveis a um Estado forte e tendências por um governo centralizador da política e da economia. O engraçado é que entre nós o fermento deste bolo é o populismo caricato do PT e seus puxadinhos.

Tenho me empenhado na luta para deixar aos pósteros uma sociedade democrática, com liberdade e justiça; por isso, registro a minha convicção de que o globalismo se George Soros & Cia impede uma democracia autêntica.

Como se trata de uma política internacional, o globalismo acentua a desigualdade social e como consequência disto, o populismo cresce e o racismo aparece…

No Knesset, parlamento israelense, transita um projeto de lei impedindo que ONGs recebam verbas da Fundação Sociedade Aberta de Soros. Como Israel, há muitos países que reconhecem como indesejável a atividade de Soros; e é por aí que mora o perigo da nossa geração assistir a Liberdade internada na UTI em estado terminal…

Já são percebidos os sintomas de degenerescência da Democracia no Brasil. Uma grande parcela de brasileiros já constata que não a nada mais antidemocrático do que um Executivo fragilizado, um Legislativo corrupto e um Judiciário que não faz Justiça…

O STF perde a credibilidade, Temer não consegue aprovar as reformas necessárias ao País; e o Congresso está pervertido.

Assim, a esperança no futuro cede lugar ao desânimo e ao enfraquecimento da luta para vencer o crime político organizado. Isto é muito triste. Lutemos para que os fascismos do século passado sejam enterrados em cova bastante funda para que não voltem como mortos-vivos.

 

 

Augusto dos Anjos

As Cismas do Destino

 

Recife. Ponte Buarque de Macedo.

Eu, indo em direção à casa do Agra,

Assombrado com a minha sombra magra,

Pensava no Destino, e tinha medo!

 

Na austera abóbada alta o fósforo alvo

Das estrelas luzia… O calçamento

Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,

Copiava a polidez de um crânio calvo.

 

Lembro-me bem. A ponte era comprida,

E a minha sombra enorme enchia a ponte,

Como uma pele de rinoceronte

Estendida por toda a minha vida!

 

A noite fecundava o ovo dos vícios

Animais. Do carvão da treva imensa

Caía um ar danado de doença

Sobre a cara geral dos edifícios!

 

Tal uma horda feroz de cães famintos,

Atravessando uma estação deserta,

Uivava dentro do eu, com a boca aberta,

A matilha espantada dos instintos!

 

Era como se, na alma da cidade,

Profundamente lúbrica e revolta,

Mostrando as carnes, uma besta solta

Soltasse o berro da animalidade.

 

E aprofundando o raciocínio obscuro,

Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,

O trabalho genésico dos sexos,

Fazendo à noite os homens do Futuro.

 

(Trecho de As Cismas do Destino, de Augusto dos Anjos).

Manuel Bandeira

A estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

 

Manuel Bandeira (Recife 1886 – Rio de Janeiro 1968)