Arquivos Mensais: fevereiro 2017

Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim

Nós, os carecas

MARCHINHAS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São estas as suas duas fontes de sonho”. (Carlos Drummond De Andrade)

Acho que foi o diabo quem inventou essa história do “politicamente correto”. No carnaval é que se vê que esta barbaridade está na contramão da alegre confraternização social. Lembrando que é a inversão de valores que domina os temas carnavalescos.

Essa desgraça que se abateu sobre o mundo é a razão do fim das marchinhas políticas, caricaturais, denunciantes e de protesto. Na minha juventude cantei e gravei marchinhas do desabafo popular, começando por “DAQUI NÃO SAIO” de Paquito e Romeu Gentil.

Lembrando a agonia de despejo forçado pela modernização urbana do Rio de Janeiro, cantamos “Daqui ninguém me tira/ Onde é que eu vou morar/ O senhor tem paciência de esperar/ Inda mais com quatro filhos/ Onde é que vou parar? ”

Os protestos da época induziram uma nostalgia pelo governo de Getúlio Vargas e os compositores Haroldo Lobo e Marino Pinto “estouraram” no carnaval de 50 com “RETRATO DO VELHO” fazendo o povo cantar: “Bota o retrato do velho, outra vez/ Bota no mesmo lugar/ O sorriso do velhinho/ Faz a gente trabalhar”.

Eleito Getúlio, o Rio de Janeiro sem autonomia política, sofria problemas estruturais, o que levou Vitor Simon e Fernando Martins a comporem “VAGALUME”, o protesto uníssono dos cariocas: “Rio de Janeiro/ Cidade que nos seduz/ De dia falta água/ De noite falta luz. ” Sobre o mesmo tema, apareceu em 1954 “TOMARA QUE CHOVA”, de Romeu Gentil e Paquito: Tomara que chova/  Três dias sem parar (bis)/ A minha grande mágoa/ É lá em casa não ter água/ E eu preciso me lavar”…

Na minha velha cabeça sempre achei que as marchinhas traduziam o contentamento coletivo do reinado de Momo… E são insuperáveis. Há pelo menos umas 100 que se tornaram clássicas, e hoje mais fortes do que nunca pela bestialidade das proibições.

A mais antiga, e ainda cantada, é a “ABRE ALAS” da inolvidável Chiquinha Gonzaga. E vieram depois com a força da tempestade “LINDA MORENA” (Lamartine Babo), PIERROT APAIXONADO (Noel Rosa E Heitor Dos Prazeres) e “MAMÃE EU QUERO” (Jararaca e Vicente Paiva).

Me perdoem os “politiqueiros corretos” que não passam de uma tomografia computadorizada da imbecilidade reinante entre os que se autodenominam de “vanguarda”. Adoro “O TEU CABELO NÃO NEGA”, de Lamartine Babo; a MULATA É A TAL” (Braguinha-Antônio Almeida) e “NEGA MALUCA” (Fernando Lobo-Evaldo Rui). Procuro e não acho racismo nas letras destas canções.

Tampouco encontro misoginia e preconceitos em “ALLAH-LÁ-Ô” (Haroldo Lobo-Nássara), “AURORA” (Joel e Gaúcho), “NÓS OS CARECAS”, “MARA ESCANDALOSA”, “SASSARICANDO”, “BALZAQUEANA”, (Wilson Batista) e “CABELEIRA DO ZEZÉ”.

Ainda lembrando os protestos, tivemos “PRAÇA ONZE”, “ZÉ MARMITA”, “ACENDE A VELA”, “TOMARA QUE CHOVA”. Mas quando o romantismo aflorava, entoávamos “TAÍ” (Joubert de Carvalho) e “QUEM SABE, SABE” (Jota Sandoval-Carvalhinho).

Sob o domínio da alegria pura, dançávamos com a CHIQUITA BACANA” (Haroldo Lobo e David Nasser), “TOURADAS EM MADRI” e “YES, NÓS TEMOS BANANA” (Braguinha e Alberto Ribeiro). “SACA-ROLHA” (Zé da Zilda, Zilda do Zé e Waldir Machado, “ME DÁ UM DINHEIRO AÍ” (Ivan, Homero e Glauco Ferreira) e “CACHAÇA”(Mirabeau Pinheiro-Lúcio de Castro-Heber Lobato).

Dito isto, vê-se que abomino o “politicamente correto”, que não passa de uma “PIADA DE SALÃO” (Klecius Caldas e Armando) …

 

Lao Zi (VI aC)

Abstração

Quando a beleza é abstraída,

então a feiúra tem sido implícita ;

Quando o bem é abstraído

Então o mal tem sido implícito .

 

Tão vivos e mortos são abstraídos da natureza,

Difíceis e fáceis abstraídos do progresso,

Longos e curtos abstraídos do contraste,

Elevados e baixos abstraídos da profundidade,

Canção e discurso abstraídos da melodia,

Depois e antes abstraídos da sequência.

 

O sábio experimenta sem abstração,

E realiza sem ação;

Ele aceita o fluxo e refluxo das coisas,

nutre-as, mas não as possui,

e vive, mas não habita.

TONS DE CINZA

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“O ser humano se engrandece no exato grau em que trabalha para o bem-estar do seu semelhante” (Mahatma Gandhi)

O Programa “Estúdio I” da G. News, sempre nos leva a trocar de canal para não ouvir intervenções idiotas dos lulopetistas enrustidos que ali pululam. Outro dia, num intervalo dos inconsequentes ataques a Trump (marca registrada da Globo), trouxeram quase 15 minutos de críticas a João Dória, o prefeito da capital paulista.

Único argumento: “Dória está pintando a cidade de cinza”. As moiçolas vespertinas, posando de “gênias”, engatam a quinta marcha na contramão da opinião pública. Não veem Dória flanando nas pesquisas que lhe deram 44% de ótimo e bom e 33% de regular, somando 77% de aprovação. Contra ele, o cabalístico e malfadado 13% do fanatismo lulopetista.

Contra Dória, que em menos de dois meses trouxe medidas e realizou programas de agrado popular, os opositores gratuitos só têm um argumento, injustificável, idiota mesmo, reclamando que ele está pintando a cidade de cinza.

Dória tem dado um banho nos políticos profissionais como administrador. Empresário bem-sucedido (pelo trabalho, não é nenhum Eike Batista, glória empresarial do PT), organiza São Paulo estabelecendo responsabilidades pela produção e traçando metas exequíveis. Isto vem se refletindo em todo País…

Em 30 dias obteve resultados que a grande maioria de prefeitos não realiza nos quatro anos de mandato. O primeiro balanço mensal da sua gestão dá inveja aos cidadãos e cidadãs bem informados de outros estados. Além disto, Dória presta contas à população diariamente, através das mídias sociais, ou seja, sem propaganda paga.

“…  Mas Dória está pintando a cidade de cinza”. De vários tons de cinza, um para cada realização”.

Vestiu um macacão e foi às praças, com a indispensável ajuda do secretário Gilberto Natalini. Assim, revitalizou o Parque do Ibirapuera, que estava abandonado. No Ibira, recuperou os banheiros públicos e o parquinho a custo zero para a Prefeitura. O seu projeto “Cidade Linda” chegou ao centro da cidade e entregou praças na periferia à população, com replantio de grama, flores e instalação de bancos.

“…  Mas Dória está pintando a cidade de cinza”. De vários tons de cinza, um para cada realização!

A avaliação nas pesquisas do trabalho que Dória vem realizando lhe faz justiça: O Prefeito vestiu uma bata de enfermagem e o Programa Corujão Saúde já realizou mais de 70 mil exames atendidos pelos melhores hospitais particulares.

“…  Mas Dória está pintando a cidade de cinza”. De vários tons de cinza, um para cada realização.

No campo da economia a Prefeitura tem recebido doações das empresas paulistanas para as benfeitorias em diversos bairros e economizou 10 milhões por mês dos cofres municipais cortando o aluguel de carros e vans.

Pelo lado social Dória realizou a façanha de manter as passagens de ônibus a R$ 3,80, enquanto as cidades do entorno subiram para R$ 4,20 ou mais. Imprimiu melhorias nos albergues para o povo da rua com a ajuda de uma rede de hotéis e distribuição de produtos de higiene doados pela Unilever.

“…  Mas Dória está pintando a cidade de cinza”. De vários tons de cinza, um para cada realização.

Os “movimentos tentáculos do PT”, autodenominados “populares”, estão paralisados diante do apoio crescente do povo paulistano ao modo de governar de Dória. A efetivação de parcerias público privadas efetivas, o apoio dado pelo empresariado e o trabalho permanente e ininterrupto do Prefeito e seus auxiliares entusiasmam tanto que voluntários de todas as classes sociais acorrem para colaborar com a limpeza das ruas e das praças.

“…  Mas Dória está pintando a cidade de cinza”. De vários tons de cinza, um para cada realização.

Rainer Maria Rilke

Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.


Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

(Tradução: Paulo Plínio Abreu)

ledo Ivo

ACONTECIMENTO DO SONETO

À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

DESTOANTE

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Eu estive em todos os lugares e só me encontrei em mim mesmo” (John Lennon)

Uma viagem pelo interior dos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte nos esclareceu muita coisa sobre a situação destoante que o Brasil atravessa e nos leva a lamentar o que ocorre na Região Nordeste invadida por uma modernidade – entre aspas – que degenera a sua rica cultura.

Vejam só: na minha querida Guarabira, capital do Brejo Paraibano, quis levar o acompanhante, meu amigo Augusto Lula – vídeomacker e fotógrafo apaixonado – para um restaurante que conheci anos atrás e comer lá o excelente picado que oferecia. No lugar da casa de pasto, encontramos um Subway…

Em vez de uma célebre oferta de carne-de-sol, montaram uma Churrascaria Paraguaia: – “Não se aborreça”, disse-me Lula, “tudo é passeio”. Teve razão: rodando pela periferia encontramos o Bar da Barata – do homônimo Lula meu velho amigo. Quando os apresentei, Augusto, amostrado, se identificou: – “Lula Dez Dedos”, o dono do bar, repentista, retrucou: – “Lula De Uma Perna Só”; perdera um membro inferior num acidente…

Fomos bem tratados ali. Perguntado porque a casa se chamava “Bar da Barata” o Lula De Uma Perna Só, falou que ali havia uma imensa quantidade dos ortópteros, e justificou: – “Mas só tem daquelas pequeninhas”…

A cordialidade e generosa atenção dos guarabirenses continua a mesma; mas não se dão conta de que a sua cidade está se transformando. Para pior.

Em Bananeiras, nas vertentes da Serra da Borborema, quisemos almoçar a famosa fava, iguaria regional. Já não era a mesma, e defronte do Bar da Fava uma franquia de uma loja de moda feminina paulista. No lugar de um queijeiro de Monte Alegre, montaram uma revendedora de motocicletas.

Ensinaram-nos onde encontrar queijo de coalho de qualidade. “Mais adiante na entrada de Brejinho, ao lado do antigo Cabaré de Maria do Gancho, vocês acham”. Que nada! Era uma casa de lanches especializada em hambúrgueres. Em Brejinho, cidade respeitada pela excelente qualidade da farinha ali feita, não a encontramos.

Seguindo para Natal, escolhemos ir por Monte Alegre e perguntamos se a estrada estava boa. – “Tem uns buraquim”. Monte Alegre é a cidade onde nasceu e cresceu o governador do Rio Grande Norte, e a sua estrada é intransitável.

Tudo o que vivemos destoa, do verbo destoar, figurativamente, que tudo está se tornando inconveniente; impróprio. Chocou-me encontrar no Nordeste tradicional o retrato do nosso pobre Brasil; uma radiografia da situação que nos aflige na mutação que vem de cima para baixo.

Esta alegoria nos leva ao que ocorre na política do presidente que foi eleito pelo lulopetismo e seu governo montado na base do PMDB corrupto dos Sarney e Renan Calheiros. Os “buraquim” se multiplicam vergonhosamente. As eleições de Eunício e Maia para o Senado e Câmara são buracos imensos. Crateras.

Para fechar o firo, vai para a Comissão de Constituição e Justiça do Senado o corrupto Edson Lobão. Repetindo a história da raposa tomando conta do galinheiro.

Neste quadro é impossível deixar de acreditar que estão armando uma arapuca para a Operação Lava Jato. De nome em nome, projeto em projeto, medida em medida vai-se preparando um bote sobre a Polícia Federal, o Ministério Público e a justiça boa e perfeita praticada pelo juiz Sérgio Moro.

Apesar desta nostálgica crônica me nego a omitir que atravessamos uma situação extremamente difícil por causa daqueles que se assenhoraram do poder no País, seja federal, estadual ou municipalmente…

Torna-se intolerável aceitar a conjuntura política que atravessamos. Um Executivo que executa o compadrio; um Legislativo que legisla em causa própria; e, um Judiciário fatiado por interesses partidários. Nesta destoância, cabe a pergunta: “O que fazer? ”

 

 

Yehuda Amichai

A VIDA JUNTO DA MORTE

A vida junto da morte
na carcaça de um carro à beira da estrada
você ouve as gotas de chuva na lata enferrujada
antes de senti-las cair na pele do rosto.
Cai a chuva, salvação depois da morte.
Ferrugem mais eterna do que sangue,
mais bonita do que cor de labaredas.
O vento que é tempo, alterna
com o vento que é lugar.
E Deus
permanece na terra como um homem que sabe
que esqueceu alguma coisa
e fica
até lembrar.
E à noite você pode ouvir
como Maravilhosa melodia,
o homem e a máquina,
no seu lento caminho, do fogo rubro
para a paz negra
e daí para a história
e daí para a arqueologia,
e daí para um belo estrato de geologia.
Isso também é eternidade

como o sacrifício humano que virou
sacrifício animal e depois oração em voz alta
e depois oração dentro do peito
e afinal nem oração.

Tradução: Millôr Fernandes

Vasko Popa

MONUMENTO AO OXIGÊNIO

um vinho rubro-terra me destina
a este país-braços-abertos
do coração do qual frondeja
a árvore da vida de olhos verdes

respira e assim anima
— exânime — uma estrela

me aterrorizam monumentos
grandes fantoches sobreerguidos
com frio e fogo e outras — invisíveis — armas

em parte alguma jubilou-me
um monumento ao oxigênio

todo armado de folhas
de flores e de fruto
se de outras verdades maduras

( Transcriação de Haroldo de Campos)