Arquivos Mensais: julho 2016

Manuel Bandeira

O Anel de Vidro

Aquele pequenino anel que tu me deste,
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
— Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, —
Aquele pequenino anel que tu me deste,
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste

VERSÃO

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Ela deve estar bem consciente/ Do que praticou” (“Vingança – Lupicínio Rodrigues)

Como é dicionarizada a palavra “versão”? Segundo pesquisa, seria explicação, comentário, esclarecimento e interpretação. Pode ser tradução de um texto de uma língua para outra e, na informática é a modificação no software que os programadores fazem quando é gerada uma nova versão

Versão, no contexto da música, é a tradução livre de letras em língua estrangeira ou interpretação de poesias que se tornaram populares; na política é um desastre: uma leitura pessoal de fatos, sempre distorcendo a realidade.

Os pelegos lulo-petistas são peritos em oferecer versões para defender-se de denúncias de erros, crimes e malfeitos. A falsidade dos seus esclarecimentos, e a explicação fraudulenta do seu comportamento e interpretação enganosa das ações que fazem, são lugares comuns na trajetória do Partido dos Trabalhadores.

Do assassinato de Celso Daniel e dos dossiês dos aloprados até o Mensalão e o Petrolão o que a sociedade brasileira vê é um processo criminoso que recebe comentários disparatados, indigestos por parte dos envolvidos.

Na atual conjuntura política, na falsa interpretação dos lulo-petistas tivemos as delações do ex-senador Delcídio do Amaral, eleito pelo PT e líder do Governo Dilma cassado por seus pares, como uma traição.

Ora, Delcídio era íntimo de Lula e de Dilma, e foi enrolado por eles em tramas armadas para acobertar desvios éticos e ilegais, inclusive interferindo nas investigações da Lava Jato. Pegado em flagrante, defendeu-se dizendo que cumpria tarefas do partido…

Dilma, por sua vez, personifica este camaleônico interpretar da realidade. Sobre Pasadena, transgressões de Erenice, propinas e caixa 2 da campanha, Dilma teve cinco versões: Não existia; depois, não sabia; terceira, não participou; quarta, faltam provas; e, agora, que caixa 2 foi coisa do PT.

Mergulhado no oceano das mentiras e das fraudes petistas, até a sublime Declaração dos Direitos Humanos está na pauta da última versão lulo-petista. Os direitos humanos abrangem a vida das pessoas em sociedade. Por eles, são cobradas as práticas do Estado, sugerem-se a criação de políticas públicas e seu cumprimento através da fiscalização de órgãos específicos.

A Declaração dos Direitos Humanos combate à discriminação de qualquer tipo, de gênero, de opção sexual, prisão arbitrária, racial, religiosa e a tortura, defendendo o princípio de que todos são iguais perante a lei.

Não é que o ladravaz, cínico e mentiroso, Lula da Silva, baseado nos direitos humanos está apelando para ONU para escapar das punições pelos crimes praticados? Seus advogados Cristiano Zanin, inglês, de renome internacional, e o australiano Geoffrey Robertson, ex-juiz da corte de apelações da ONU, denunciam que o juiz Sérgio Moro está agindo com parcialidade.

Com honorários caríssimos, os defensores de Lula protocolaram petição no Conselho de Direitos Humanos da ONU, com a versão de que o juiz e os procuradores da Lava Jato cometeram “abuso de poder” contra Lula e violaram a Convenção Internacional de Direitos Políticos e Civis. Ocorre que a Justiça Federal brasileira funciona e tornou o ex-presidente réu por tentativa de obstrução de investigações.

Diante disso, os brasileiros e brasileiras esclarecidos vão para as ruas lutar contra as versões corruptivas da bandidagem que o PT-governo está bem consciente do que praticou…  Pelo impeachment de Dilma, em defesa da Lava Jato e prisão de Lula pelas práticas danosas do lulo-petismo se vão como as pedras que rolam na estrada.

Charles Baudelaire

O convite à viagem

 

Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
De teu olho infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
– Os sanguíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Edição bilingue. Tradução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

 

 

E-MAILS

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Você abusou, tirou partido de mim, abusou / Tirou, tirou partido de mim, abusou / Tirou partido de mim, abusou” (Antonio Carlos & Jocafi)

Construindo um cenário de ficção, imagino que passou despercebida no Brasil a divulgação pelo Wikileaks de uns e-mails trocados entre um simples militante do PT, antigo ativista, mas praticamente anônimo entre milhares de brasileiros e brasileiras que foram iludidos por Lula da Silva e sua “gerentona” Dilma Rousseff. Dos vazamentos, transcrevo algumas das mensagens:

De: Militante_____________________________________________________

Para: Lula_______________________________________________________

Assunto: Reconstrução______________________________________________

Companheiro Lula: Falam da reconstrução do nosso glorioso PT e peço orientação de como agir. O partido antigo se acabou por causa da delação sobre propinas para nossos dirigentes? E falam de você como um dos ex-presidentes mais ricos do mundo, é verdade?

De: Lula_______________________________________________________

Para: Militante___________________________________________________

Assunto: Derrotismo_______________________________________________

Companheiro: Vc está sendo derrotista por que a “reconstrução” é uma estratégia de marketing para as eleições, onde o partido vai enfrentar dureza com o impeachment da companheira Dilma. Um militante não deve acreditar nem sequer sonhar sobre propinas, mas como expropriação do Estado que contribuiu para implantar o socialismo bolivariano. Quanto a mim, vc acha que eu não mereço um sítio e um tríplex? E o dinheiro que tenho lá fora não é meu, é nosso.

De: Militante __ _________________________________________________

Para: Lula______________________________________________________

Assunto: Contribuição______________________________________________

Ah, está bem. Se o dinheiro depositado no Exterior é nosso, vou deixar de pagar o dízimo do partido. Mas não sei o que dizer aos colegas de trabalho que o golpe venceu, e Dilma não convocará novas eleições. Como justificar que o PT votou num golpista como Rodrigo Maia para presidir a Câmara?

De: Lula _______________________________________________________

Para: Militante ___________________________________________________

Assunto: Contribuição ______________________________________________

Que é isso, companheiro: Parar de pagar a mensalidade é uma traição! Não confia mais nos seus líderes? O Partido está acima de tudo, da família, da religião e dos sonhos. Nos aliamos com quem nos ajuda, Maluf, Collor, Renan, Sarney, Lobão não ficaram com nosso governo? Até o Cunha durante um certo período, não deu apoio a Dilma? O que interessa é defender o Maduro, as Farc e os ditadores socialistas da África.

De: Militante_____________________________________________________

Para: Lula_______________________________________________________

Assunto: Fim_____________________________________________________

Se é assim, vou deixar de pagar e rasgar a carteirinha, Lula. Continuo pensando no que queríamos quando fundamos o PT …  Amo minha família, tenho minha religião e ainda sonho com um Brasil melhor, por que os traidores são vocês, os pelegos que roubaram o Brasil e o meu ideal. Vc abusou, tirou o partido de mim…

 

 

PALAVRAS…

MIRANDA SÁ (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

“Palavras, palavras, minha vida nunca foi nada além de palavras…” (Samuel Beckett)

Na minha adolescência tive um professor de português que nas suas dissertações disse um dia que as palavras nascem, adoecem e morrem como ocorre com as pessoas; agitam-se, alegram-se, entediam-se, esmorecem, congelam-se e desaparecem. Algumas escapam milagrosamente, saem da UTI e voltam a circular…

A civilização vista pelo nosso epigrafado, Beckett – intelectual irlandês, criador do “Teatro do Absurdo” e ganhador do Prêmio Nobel, inculcou-lhe a tese de que “somos criados por palavras que não vêm de nós, e não temos escolha…”

Nestes dias em que vivemos constato que tinha razão meu professor e também Beckett. As palavras regem a vida social. Nascem inesperadamente, desfilam nas passarelas da comunicação, enquanto outras são enterradas pela memória coletiva!

Desapareceu do vocabulário da política, por exemplo, a palavra “honradez” e o seu sinônimo “probidade”. Os carreiristas e oportunistas infiltrados na representação popular baniram o seu uso no comportamento e até nos discursos.

“Honradez” teve um enterro sem choro nem vela após a ascensão da pelegagem lulo-petista, que afastou da manifestação verbal a “castidade”, a “virgindade” e o “pudor”, através do amoralismo que inundou a sociedade com a adoção da libertinagem…

Também não mais se ouve falar de “Educação”, substituindo a vocação para o ensino pela agitação doutrinária promovida pelo PT-governo e o totalitarismo descompromissado com o futuro das novas gerações e o respeito à Pátria.

Apesar de estarem hospitalizados, às vezes nos lembramos e visitamos, para cobrar das autoridades, a palavra “ética” e o vocábulo “trabalho”, esquecidos na imposição do “politicamente correto” do partidarismo e das esmolas sociais…

Nos corredores da notícia, requebrando-se no samba da corrupção reinante no País e provocando a nossa indignação assistimos o bloco da roubalheira nos termos de “delação”, “propina” e “impunidade” participantes da falsidade ideológica do “ativismo”, “fanatismo” e “terrorismo”.

Neste “avesso carnaval” reina a palavra “Poder”, com soberba e arrogância. Os que usam esta fantasia deveriam conhecer uma passagem atribuída a Canuto, rei da Noruega, que estava à beira-mar quando dele se aproximou o embaixador da Alemanha para apresentar-lhe as credenciais. O alemão iniciou seu discurso com louvaminhas, dizendo: – “Vós que sois um rei poderoso…”

Canuto não o deixou concluir a frase; encaminhou-se para o quebra-mar e gritou para as ondas: – “Proíbo-lhes que me molhem! ”  Mas logo veio uma vaga mais forte se derramou sobre ele que, se voltando para o embaixador, disse: – “Vedes? Se eu fosse poderoso o mar me obedeceria…”

Creio que neste capítulo da história viking, as águas do Mar do Norte coloriam-se naquele Verão do atraente verde que que nos lembra uma palavra imortal, “Esperança”, que os brasileiros mantêm ao ver a sua Pátria sufocada no atoleiro da pelegagem, da desordem, da incompetência e da corrupção que o lulo-petismo impôs.

É esta esperança que nos faz convocar o nosso povo para ganhar as ruas no dia 31 de julho, defendendo a República livre da decomposição dos poderes imposta pela organização criminosa chefiada por Lula da Silva, ainda solto por leniência do Supremo Tribunal Federal.

Alphonsus de Guimarães

CANÇÃO DO OUTONO


Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh’alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido…

 

          Tradução: Alphonsus de Guimarães

LIBERDADE

MIRANDA Sá (E-mail: mirandasa@uol.com.br)

Liberdade, liberdade/ Abra as asas sobre nós/ Das lutas, na tempestade/ Dá que ouçamos tua voz”  (Hino da Proclamação da República)

Com a República criou-se para nova identidade da Nação o Hino Nacional brasileiro; foi composto com letra de José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e arranjos musicais de Leopoldo Miguez.

Embora na minha infância e adolescência era cantado nas escolas como o Hino da Proclamação da República e nos fizesse vibrar pela força dos seus versos, caiu no esquecimento e raramente é executado em solenidades oficiais.

Popularizou-se carnavalescamente como samba enredo da Imperatriz Leopoldinense, aproveitando o verso em epígrafe; e o povo o cantou exaltando à Liberdade, uma ideia que vem de longe, por que os gregos antigos repudiavam a tirania.

O filósofo Platão escreveu na sua “República” que “as aptidões naturais dos homens são diferentes e precisam de liberdade para expressá-las”, mas a Grécia, além de dividida estados autônomos, também o era em classes socais, mantendo a escravatura; por isso só imaginava a liberdade exercida pela classe dominante.

Como os gregos, os romanos também conceberam a liberdade somente para a cidadania, sem alcançar escravos, nem mesmo os “libertos” que representavam uma grande parcela da sociedade. Os “libertos” exerciam profissões nobres e podiam enriquecer, mas nenhum estatuto lhes permitia a mesma liberdade cidadã.

Mais tarde, a Revolução Francesa estabeleceu o conceito moderno do Liberdade: Na sua versão original de 1789, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi uma conquista dos franceses sublevados contra o absolutismo monárquico e rezava que a liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique os outros e a garantia de que todos gozem dos mesmos direitos.

A Guerra da Independência dos Estado Unidos e o “Cartismo” na Inglaterra seguiram-se à Revolução Francesa estabelecendo os direitos de cada homem ou mulher à liberdade individual de culto, opinião e manifestação.

A intelectualidade autêntica livre de preconceitos, dogmas, fanatismo político ou religioso e, sobretudo de ideologias totalitárias, sabe que no Brasil, mesmo com a redemocratização pós-ditadura, apenas alcançamos teoricamente a liberdade do individual.

A era petista, morta, mas insepulta, garantiu liberdade à pelegagem lulo-petista, até de roubar. Lula, um reles pelego que serviu à Volkswagen e à ditadura militar, aderiu ao narco-populismo bolivariano e comandou o assalto ao patrimônio público.

Lembra a dissidente comunista alemã contra a ditadura stalinista, Rosa de Luxemburgo, que nos legou um pensamento perfeito: “Liberdade somente para membros do partido e do governo, não é, de modo nenhum, liberdade”. Foi o que vínhamos assistindo no PT-governo.

Felizmente, Lula nunca alcançou os intentos malignos do bolivarianismo, mas implantou um sistema onde os tentáculos do seu governo tiveram liberdade de invadir propriedades, prédios públicos e impedir à cidadania o direito de ir e vir assegurado pela Constituição.

O que fez no Supremo Tribunal Federal envergonha a Nação. Nomeou ministros de carteirinha do partido e acossado pela justiça da primeira instância chamou-os de acovardados; e eles, vergonhosamente, atenderam às suas provocações.

Os “supremos juízes nomeados” revezam-se para escamotear a justiça boa e perfeita, ora Teori engaveta processos, ora Levandowski adia o julgamento de impeachment, ora Toffoli solta o ladrão do empréstimo consignado, que roubava os servidores necessitados, aposentados e pensionistas.

A indignação cobre o país bafejado pelo vento encorajador da Liberdade. Vamos às ruas no dia 31 de julho para apoiar o impeachment, legalizar o governo Temer e exigir a punição dos corruptos que, além de roubar o País, tentam subtrair o nosso respeito pelas instituições republicanas!

 

 

Cecília Meireles

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

— e um dia me acabarei.

Pequenos Poemas em Prosa – Charles Baudelaire

O CÃO E O FRASCO

“Meu bom cão, meu cachorrinho, querido Totó, chegue- se e venha respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade.”
E o cão, agitando a cauda, o que é, creio eu, nesses pobres seres, o sinal correspondente a um sorriso ou riso, aproximou-se e pousou curiosamente seu focinho úmido sobre o frasco destampado; em seguida, recuando subitamente, com medo, latiu contra mim como se me reprovasse.
“Ah! miserável cão, se eu tivesse lhe oferecido um pacote de excrementos, você o teria farejado com prazer e talvez até devorado. Assim você mesmo, indigno companheiro de minha triste vida, você se parece com o público a quem não se pode jamais presentear com perfumes delicados que o exasperam mas com sujeiras cuidadosamente escolhidas.”

 

Agostinho Neto

AMANHECER

 

Há um sussuro morno

sobre a terra;

digladiam-se

luz e trevas

pela posse do Universo;

sente-se a existência

a penetrar-nos nas veias

vinda lá de fora

através da janela;

cresce a alegria na alma

a Vida murmura-nos doces fantasias.

Tangem sinos na madrugada

vai nascer o sol.

 

Agostinho Neto (Catete, Angola, 17/9/1922 – Moscou, Brasil, 10/9/1979)

Médico, poeta, político, 1.º Presidente de Angola.