Arquivos Mensais: junho 2010

Vinícius de Moraes

Ternura


Eu te peço perdão por te amar de repente

Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos

Das horas que passei à sombra dos teus gestos

Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos

Das noites que vivi acalentado

Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo

Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.

E posso te dizer que o grande afeto que te deixo

Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas

Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…

É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias

E só te pede que te repouses quieta, muito quieta

E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar

[ extático da aurora.



Vinicius de Moraes

Texto extraído da antologia “Vinicius de Moraes – Poesia completa e   prosa”, Editora Nova Aguilar – Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.

Ciranda financeira

Bovespa fecha trimestre com pior resultado desde 2008

Em dia de agendas econômica e corporativa cheias, a bolsa paulista refletiu a volatilidade dos mercados internacionais e caiu no final, cravando o terceiro mês seguido de perdas, com o pior trimestre desde o colapso do Lehman Brothers, no final de 2008.

O Ibovespa fechou as operações desta quarta-feira (30) em queda de 1,68%, aos 60.935 pontos, na mínima do dia. Esta é a menor pontuação desde o dia 26 de maio (60.190). O giro financeiro atingiu R$ 6,4 bilhões.

G1-Economia

Câmbio

Dólar fecha semestre volátil com alta de 3,50%

O dólar terminou um semestre volátil com alta de 3,5%, a R$ 1,804, após cair a R$ 1,70 com a perspectiva de entrada de recursos no país e subir a R$ 1,90 com as incertezas sobre o crescimento global e sobre a dívida na Europa. Em junho, a taxa de câmbio recuou 0,93%, e terminou cotada a R$ 1,804 para venda no mercado à vista. Nesta quarta-feira (30), em um movimento de ajuste após a forte alta da véspera, o dólar teve baixa de 0,39%.

Reuters

MP de Alagoas investiga desvio para uso eleitoral de cestas básicas doadas a vítimas das cheias

O Ministério Público de Alagoas está investigando um possível desvio, com interesses políticos, dos donativos destinados às vítimas das enchentes no Estado.

Uma das denúncias aponta que cestas básicas doadas estariam sendo guardadas para serem distribuídas apenas durante o período de campanha eleitoral.

Segundo o procurador-geral de Justiça, Eduardo Tavares, a denúncia é de “extrema gravidade”, embora ainda não passe de suspeita. “Alguns promotores nos passaram essas informações, que ainda não foram comprovadas. Há alguns indícios apenas, mas já expedimos uma recomendação para que, à mínima comprovação desse ato, aconteça a prisão dessa pessoa. Não podemos aceitar que alguém tire proveito de uma situação como essa”, afirmou.

Outra informação que chamou a atenção do MP foi a existência de listas paralelas à da Defesa Civil para a entrega de donativos. Para Tavares, essas listas poderiam favorecer a grupos políticos. “Sabemos como é política partidária, e por isso nos reunimos hoje [terça-feira, 29] com a Defesa Civil e expedimos recomendação, que será publicada no Diário Oficial, para que exista um cadastro único de vítimas, assim como um comando único de operações”, defendeu.

O MP ainda ameaça ingressar com ações de improbidade administrativa contra autoridades que venham a descumprir as regras de gestão pública dos repasses emergenciais.

Uma comissão foi criada também para acompanhar o Fundo da Defesa Civil, para onde estão sendo destinados os recursos federais e doações da população em geral.

Para o procurador-geral, é necessário também estabelecer horários para distribuição de “quentinhas” aos desabrigados, já que estariam sendo registradas confusões nas cidades em calamidade pública.

Fonte: Uol Notícias/Carlos Madeiro

Serra anuncia deputado Indio da Costa (DEM-RJ) como vice

O DEM e PSDB acabam de decidir o nome do deputado Indio da Costa (DEM-RJ) como vice do tucano José Serra na disputa presidencial.

Entre os pontos para a sua escolha está o fato de ele ter sido o relator do projeto do Ficha Limpa. Também foi levado em conta ele ser do Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país, e ser jovem.

Deputado Indio da Costa (DEM-RJ)

A indicação é uma vitória pessoal do ex-prefeito do Rio Cesar Maia e do presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). Costa já foi secretário de administração do Rio no governo Cesar Maia.

O martelo foi batido na casa de Serra, onde estavam reunidos o tucano, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), e Rodrigo Maia.

Serra irá viajar para Brasília, onde participa da convenção do DEM. Uma sala foi montado no hotel Grand Bittar, em Brasília, onde o partido faz a convenção. O vice será anunciado em uma entrevista coletiva marcada para as 17h.

Indio da Costa foi escolhido depois da reação do DEM contra a indicação do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) para o posto.

“@depindiodacosta, parabéns pela brilhante atuação a favor do projeto Ficha Limpa aprovado pelo Congresso. Seu trabalho foi decisivo”, escreveu Dias no seu Twitter na noite de ontem.

O presidente do PPS, Roberto Freire, elogiou a escolha de Indio e saiu em defesa do deputado ao ser questionado sobre sua falta de experiência.

“Ele tem mais experiência do que Dilma [Rousseff, candidata do PT à Presidência].”

Biografia


Antônio Pedro de Siqueira Indio da Costa tem 39 anos e é formado em Direito pela Universidade Cândido Mendes.

Ele foi eleito vereador no Rio de Janeiro por três legislaturas de 1997 a 2005. Além do DEM, ele teve uma passagem pelo PTB.

Na Câmara deste 2006, o deputado é membro da Comissão de Constituição e Justiça, da Comissão de Defesa do Consumidor e da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática.

Fonte: Uol Notícias

Bruno se complica

Pistas reforçam suspeitas sobre o goleiro Bruno

Investigado pelo desaparecimento da ex-namorada Eliza Samúddio, com quem teria um filho, o jogador do Flamengo viu sua situação se complicar. Perícia no Range Rover dele encontrou fios de cabelo e manchas semelhantes às de sangue. O material será submetido a exames de DNA. Também no sítio do atleta, na Grande BH, foram localizados respingos parecidos com sangue. Hoje deve ser concluído o cruzamento de dados dos telefones de Bruno, Eliza e de uma amiga dela, o que poderá confirmar se ela esteve no sítio do goleiro.

Brasil real

Gastos levam contas públicas ao pior resultado em 18 anos

A situação das contas públicas se deteriorou drasticamente em maio. O superávit primário – economia para pagar juros da dívida – de todo o setor público despencou de R$ 19,7 bilhões em abril para R$ 1,4 bilhão no mês passado. O pior desempenho foi da União, que teve déficit de R$ 1,431 bilhão, o maior em 18 anos para o mês. O principal responsável pelo rombo foi a Previdência.

Blog_Jornalismo_Notícias de Hoje

Dilma propõe o que Lula nunca fez – Candidata do Planalto, Dilma Rousseff propôs zerar impostos sobre investimentos – que Lula aumentou. José Serra disse que o BC tem de estar afinado com a equipe econômica, mas que não tirará a autonomia do órgão.

Bancos voltam a inquietar os mercados – A aversão a riscos teve uma ascensão dramática ontem, reduzindo o rendimento dos títulos do governo americano para mínimos históricos e prejudicando ações, commodities e o euro diante das grandes preocupações com a recuperação econômica mundial e a saúde do sistema bancário europeu.

Irmão de Álvaro Dias decide se aliar a petistas – Osmar Dias (PDT) decidiu concorrer ao governo do Paraná, como aliado de Dilma Rousseff (PT). Ele dizia que não seria candidato se seu irmão Álvaro (PSDB) fosse indicado vice de José Serra. A indicação tucana abriu crise com o DEM.

Engajamento verde – Apoio entre o empresariado à candidatura de Marina Silva  à Presidência reúne desde ex-colaboradores de Lula até antigos simpatizantes do PSDB.

DEM faz convenção e PSDB tenta salvar aliança – Na véspera da Convenção Nacional do DEM, seu principal aliado, o PSDB buscava ontem uma saída para salvar a aliança. Os tucanos resistiam à ideia de rever a indicação do senador Álvaro Dias (PR) para vice do candidato José Serra. A aliança entre os dois partidos está praticamente selada e será anunciada durante a convenção, que ocorre hoje, em Brasília.

Burocracia custa R$ 46 bi anuais ao país, afirma a Fiesp – O custo anual da burocracia para as empresas brasileiras, calculado pela Fiesp (federação das indústrias paulistas), é de aproximadamente R$ 46,3 bilhões, relata Fernando Canzian. Boa parte do gasto se destina a demandas tributárias dos governos federais, estaduais e municipais. Para a Fiesp, o PIB per capita do país poderia crescer 17% com simplificações.

Aposentadoria integral custa R$ 2,4 bi  – Os gastos do governo com o pagamento de aposentadorias podem ter um crescimento de pelo menos R$ 2,4 bilhões por ano caso o Congresso aprove a Proposta de Emenda à Constituição nº 46. A PEC, em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, restaura a aposentadoria integral para juízes, procuradores e defensores públicos.

Anvisa incluirá advertência em propagandas de alimentos – Por resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, daqui a seis meses, as propagandas de alimentos com alto teor de açúcar, sódio e gorduras terão de veicular alertas sobre os potenciais problemas à saúde que seu consumo pode causar. Em nota, a associação da indústria do setor disse que vai tentar suspender a resolução na Justiça.

Tesouro inova para elevar capital de estatais em bolsa – O Tesouro está funcionando como uma espécie de holding e buscando uma estrutura ótima para suas operações societárias. Ele terá de levantar pelo menos R$ 20 bilhões para capitalizar suas estatais na bolsa, se consideradas as previsões para aumento de patrimônio apenas de Petrobras, Telebrás, Eletrobrás e Banco do Brasil. Na avaliação de profissionais do mercado financeiro, a União faz uma engenharia financeira inédita.

União barra aumento de R$ 7 bilhões ao Judiciário – O secretário de Tesouro Nacional, Arno Augustin, acionou o alerta: o aumento salarial de 56% em média aos 100 mil servidores dos tribunais federais causará um grave desequilíbrio nas contas públicas, mas acordo no Congresso autoriza vagas nos Ministérios da Saúde, do Planejamento e da Educação

Patrocínio para viagem de médico será limitado – O Conselho Federal de Medicina vai limitar viagens de médicos para congressos com despesas pagas pela indústria farmacêutica, relata Cláudia Collucci. Estará liberado só quem der palestras ou cursos nos eventos. Estudos mostram que, ao oferecerem favores, determinadas indústrias obtêm vantagens na prescrição de produtos. Médicos concordam em evitar abusos, mas temem prejuízos à atualização profissional.

Copa pelos ares – Companhias áreas como a Azul, Gol e TAM reduzem os preços das passagens nos dias e horários dos jogos da seleção brasileira na Copa da África.

Tarifa máxima do trem-bala será de R$ 199 – O Tribunal de Contas da União fixará em R$ 199 a tarifa máxima a ser cobrada aos passageiros do trem-bala no trajeto entre Rio e São Paulo. Vencerá a concorrência para construção e operação quem oferecer a menor tarifa. O relatório de análise dos estudos de viabilidade do projeto, de R$ 30 bilhões, será votado hoje pelo TCU.

Sul-africana quer investir no Brasil – Maior fabricante de medicamentos do hemisfério Sul, a empresa farmacêutica sul-africana Aspen Pharma quer replicar seu modelo de negócios no Brasil, onde controla a Cellofarm, que tem fábrica em Vitória (ES) desde 2008.

Vetada venda de carro que ‘faltou’ a recall – O Denatran vai criar em até três meses um sistema integrado de informações sobre recall de veículos. A ideia é impedir a venda de veículos que não compareceram ao recall quando convocados – e assim estimular o cumprimento à exigência.

Transporte: Se quiser economizar, vá de avião – As passagens de ônibus interestaduais ficam 2,13% mais caras amanhã. Na comparação de preços, viajar de Brasília para Belo Horizonte ou para o Rio de Janeiro é mais barato por avião do que por terra.

 

 

Primeiras páginas_30.jun.10

O GLOBO – Gastos levam contas públicas ao pior resultado em 18 anos

FOLHA DE SÃO PAULO – Burocracia custa R$ 46 bi anuais ao país, afirma a Fiesp

O ESTADO DE SÃO PAULO – CPI da Bancoop abre sigilo de 7 empresas e 8 pessoas

JORNAL DO BRASIL – STF decide sobre intervenção no DF

CORREIO BRAZILIENSE – Mais rigor na propaganda de alimentos

VALOR ECONÔMICO – Julgamento da intervenção no DF será concluído em agosto

ESTADO DE MINAS – Mal-estar em sessão do CNJ

JORNAL DO COMMERCIO (PE) – Concursados quatro dias de esperança

ZERO HORA – China e EUA provocam pessimismo nas bolsas

Carlos Drummond de Andrade

A MESA




E não gostavas de festa.

Ó velho, que festa grande

hoje te faria a gente.

E teus filhos que não bebem

e o que gosta de beber,

em torno da mesa larga,

largavam as tristes dietas,

esqueciam seus tricotes,

e tudo era farra honesta

acabando em confidência.

Ai, velho, ouvirias coisas

de arrepiar teus noventa.

E daí, não te assustávamos,

porque, com riso na boca,

e a média galinha, o vinho

português de boa pinta,

e mais o que alguém faria

de mil coisas naturais

e fartamente poria

em mil terrinas da China,

já logo te insinuávamos

que era tudo brincadeira.

Pois sim. Teu olho cansado,

mas afeito a ler no campo

uma lonjura de léguas,

e na lonjura uma rês

perdida no azul azul,

entrava-nos alma adentro

e via essa lama podre

e com pesar nos fitava

e com ira amaldiçoava

e com doçura perdoava

(perdoar é rito de pais,

quando não seja de amantes).

E, pois, tudo nos perdoando,

por dentro te regalavas

de ter filhos assim. . . Puxa,

grandessíssimos safados,

me saíram bem melhor

que as encomendas. De resto,

filho de peixe. . . Calavas,

com agudo sobrecenho

interrogavas em ti

uma lembrança saudosa

e não de todo remota

e rindo por dentro e vendo

que lançaras uma ponte

dos passos loucos do avô

à incontinência dos netos,

sabendo que toda carne

aspira à degradação,

mas numa via de fogo

e sob um arco sexual,

tossias. Hem, nem, meninos,

não sejam bobos. Meninos?

Uns marmanjos cinqüentões,

calvos, vívidos, usados,

mas resguardando no peito

essa alvura de garoto,

essa fuga para o mato,

essa gula defendida

e o desejo muito simples

de pedir à mãe que cosa,

mais do que nossa camisa,

nossa alma frouxa, rasgada. . .

Ai, grande jantar mineiro

que seria esse. . . Comíamos,

e comer abria fome,

e comida era pretexto.

E nem mesmo precisávamos

ter apetite, que as coisas

deixavam-se espostejar,

e amanhã é que eram elas.

Nunca desdenhe o tutu.

Vá lá mais um torresminho.

E quanto ao peru? Farofa

há de ser acompanhada

de uma boa cachacínha,

não desfazendo em cerveja,

essa grande camarada.

ind’outro dia. . . Comer

guarda tamanha importância

que só o prato revele

o melhor, o mais humano

dos seres em sua treva?

Beber é pois tão sagrado

que só bebido meu mano

me desata seu queixume,

abrindo-me sua palma?

Sorver, papar: que comida

mais cheirosa, mais profunda

no seu tronco luso-árabe,

que a todos nos une em um

que a todos nos une em um

tal centímano glutão,

parlapatão e bonzão!

E nem falta a irmã que foi

mais cedo que os outros e era

rosa de nome e nascera

em dia tal como o de hoje

para enfeitar tua data.

Seu nome sabe a camélia,

e sendo uma rosa-amélia,

flor muito mais delicada

que qualquer das rosas-rosa,

viveu bem mais do que o nome,

porém no íntimo claustrava

a rosa esparsa. A teu lado,

vê: recobrou-se-lhe o viço.

Aqui sentou-se o mais velho.

Tipo do manso, do sonso,

não servia para padre,

amava casos bandalhos;

depois o tempo fez dele

o que faz de qualquer um;

e à medida que envelhece,

vai estranhamente sendo

retraio teu sem ser tu,

de sorte que se o diviso

de repente, sem anúncio,

és tu que me reapareces

noutro velho de sessenta.

Este outro aqui é doutor,

o bacharel da família,

mas suas letras mais doutas

são as escritas no sangue,

ou sobre a casca das árvores.

Sabe o nome da florzinha

e não esquece o da fruta

mais rara que se prepara

num casamento genético,

Mora nele a nostalgia,

citadino, do ar agreste,

e, camponês, do letrado.

Então vira patriarca.

Mais adiante vês aquele

que de ti herdou a, dura

vontade, o duro estoicismo.

Mas, não quis te repetir.

Achou não valer a pena

reproduzir sobre a terra

o que a terra engolirá.

Amou. E ama. E amará.

Só não quer que seu amor

seja uma prisão de dois,

um contrato, entre bocejos

e quatro pés de chinelo.

Feroz a um breve contato,

à segunda vista, seco,

à terceira vista, lhano,

dir-se-ia que ele tem medo

de ser, fatalmente, humano.

Dir-se-ia que ele tem raiva,

mas que mel transcende a raiva,

e que sábios, ardilosos

recursos de se enganar

quanto a si mesmo: exercita

uma força que não sabe

chamar-se, apenas, bondade.

Esta calou-se. Não quis

manter com palavras novas

o colóquio subterrâneo

que num sussurro percorre

a gente mais desatada.

Calou-se, não te aborreças,

Se tanto assim a querias,

algo nela ainda te quer,

à maneira atravessada

que é própria de nosso jeito.

(Não ser feliz tudo explica.)

Bem sei como são penosos

esses lances de família,

e discutir neste instante

seria matar a festa,

matando-te — não se morre

uma só vez, nem de vez.

Restam sempre muitas vidas

para serem consumidas

na razão dos desencontros

de nosso sangue nos corpos

por onde vai dividido.

Ficam sempre muitas mortes

para serem longamente

reencarnadas noutro morto.

Mas estamos todos vivos.

E mais que vivos, alegres.

Estamos todos como éramos

antes de ser, e ninguém

dirá que ficou faltando

algum dos teus. Por exemplo:

ali ao canto da mesa,

não por humilde, talvez

por ser o rei dos vaidosos

e se pelar por incómodas

posições de tipo gaúche,

ali me vês tu. Que tal?

Fica tranquilo: trabalho.

Afinal, a boa. vida

ficou apenas: a vida

(e nem era assim tão boa

e nem se fez muito má).

Pois ele sou eu. Repara:

tenho todos os defeitos

que não farejei em ti

e nem os tenho que tinhas,

quanto mais as qualidades.

Não importa: sou teu filho

com ser uma negativa

maneira de te afirmar.

Lá que brigamos, brigamos,

opa! que não foi brinquedo,

mas os caminhos do amor,

só amor sabe trilhá-los.

Tão ralo prazer te dei,

nenhum, talvez. . . ou senão,

esperança de prazer,

é, pode ser que te desse

a neutra satisfação

de alguém sentir que seu filho,

de tão inútil, seria

sequer um sujeito ruim.

Não sou um sujeito ruim.

Descansa, se o suspeitavas,

mas não sou lá essas coisas.

Alguns afetos recortam

o meu coração chateado.

Se me chateio? demais.

Esse é meu mal. Não herdei

de ti essa balda. Bem,

não me olhes tão longo tempo,

que há muitos a ver ainda.

Há oito. E todos minúsculos,

todos frustrados. Que flora

mais triste fomos achar

para ornamento de mesa!

Qual nada. De tão remotos,

de tão puros e esquecidos

no chão que suga e transforma,

são anjos. Que luminosos!

que raios de amor radiam,

e em meio a vagos cristais,

o cristal deles retine,

reverbera a própria sombra.

São anjos que se dignaram

participar do banquete,

alisar o tamborete,

viver vida de menino.

São anjos. E mal sabias

que um mortal devolve a Deus

algo de sua divina

substância aérea e sensível,

se tem um filho e se o perde.

Conta: quatorze na mesa.

Ou trinta? serão cinquenta,

que sei? se chegam mais outros,

uma carne cada dia

multiplicada, cruzada

a outras carnes de amor.

São cinquenta pecadores,

se pecado é ter nascido

e provar, entre pecados,

os que nos foram legados.

A procissão de teus netos,

alongando-se em bisnetos,

veio pedir tua bênção

e comer de teu jantar.

Repara um pouquinho nesta,

no queixo, no olhar, no gesto,

e na consciência profunda

e na graça menineira,

e dize, depois de tudo,

se não é, entre meus erros,

uma imprevista verdade.

Esta é minha explicação,

meu verso melhor ou único,

meu tudo enchendo meu nada.

Agora a mesa repleta

está maior do que a casa.

Falamos de boca cheia,

xingamo-nos mutuamente,

rimos, ai, de arrebentar,

esquecemos o respeito

terrível, inibidor,

e toda a alegria nossa,

ressecada em tantos negros

bródios comemorativos

(não convém lembrar agora),

os gestos acumulados

de efusão fraterna, atados

(não convém lembrar agora),

as fína-e-meigas palavras

que ditas naquele tempo ,

teriam mudado a vida

(não convém mudar agora),

vem tudo à mesa e se espalha

qual inédita vitualha.

Oh que ceia mais celeste

e que gozo mais do chão!

Quem preparou? que inconteste

vocação de sacrifício

pôs a mesa, teve os filhos?

quem se apagou? quem pagou

a pena deste trabalho?

Quem foi a mão invisível

que traçou este arabesco

de flor em torno ao pudim,

como se traça uma auréola?

quem tem auréola? quem não

a tem, pois que, sendo de ouro,

cuida logo em reparti-la,

e se pensa melhor faz?

quem senta do lado esquerdo,

assim curvada? que branca,

mas que branca mais que branca

tarja de cabelos brancos

retira a cor das laranjas,

anula o pó do café,

cassa o brilho aos serafins?

quem é toda luz e é branca?

Decerto não pressentias

como o branco pode ser

uma tinta mais diversa

da mesma brancura. . . Alvura

elaborada na ausência

de ti, mas ficou perfeita.

concreta, fria, lunar.

Como pode nossa festa

ser de um só que não de dois?

Os dois ora estais reunidos

numa aliança bem maior

que o simples elo da terra.

Estais juntos nesta mesa

de madeira mais de lei

que qualquer lei da república.

Estais acima de nós,

acima deste jantar

para o qual vos convocamos

por muito — enfim — vos querermos

e, amando, nos iludirmos

junto da mesa

vazia.



Carlos Drummond de Andrade

Leia aqui a biografia do poeta.