Arquivos Mensais: dezembro 2008

Poesia

AO LONGE SOBRE UM PORTO CHEIO…

 

         Ao longe sobre um porto cheio

                                   de casas sem calefação

em meio às chaminés de navio

             de um telhado mastreado de varais

      uma mulher hasteia velas

                                     sobre o vento

expondo seus lençóis matinais

                            com pregadores de madeira

                     Oh mamífero adorável

                          seus seios seminus

         arrojam sombras retesadas

                                  quando ela se estica

para pendurar de alma lavada

                                          seu último pecado

                 mas umidamente sensual

                                           ele se enrola nela

                    agarrado à sua pele

                               Capturada assim de braços

                                                          erguidos

           ela atira a cabeça para trás

                                    numa gargalhada muda

   e num gesto espontâneo

                        espalha então cabelo dourado

 

enquanto nas inatingíveis paisagens marinhas

 

                    entre lonas brancas e enfunadas

 

sobressaem radiantes os barcos a vapor

 

                                        para o outro mundo

 

Lawrence Ferlinghetti

 

O Poeta

Poeta beat ítalo-americano. Nascido em Nova York, em 1919, ele foi Lawrence Ferling até 1955. Na verdade, seu pai, italiano, migrara para os Estados Unidos e lá encurtara o nome para Ferling. O que o filho fez, aos 36 anos, foi recuperar o nome original e assim realçar sua origem italiana. Mas ele nunca teve uma educação italiana.

 

Depois de estudar na Universidade de Colúmbia e se doutorar na Sorbonne, Ferlinghetti se mudou para San Francisco, na Califórnia. Lá, lecionou francês e se dedicou à crítica literária. Em 1953, em parceria com Peter D. Martin, abriu a livraria City Lights, nome tomado por empréstimo de Luzes da Cidade, o filme de Chaplin. Dois anos depois, já sem o sócio, Ferlinghetti decidiu entrar na área de edição de livros, especializando-se em poesia.

 

A editora City Lights ganhou notoriedade após publicar Howl (Uivo), poema de Allen Ginsberg, em 1956. O livro foi proibido pela censura, sob a acusação de obscenidade. Ferlinghetti, o editor, chegou a ser preso por isso.

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Tchaikovsky – Valery Gergiev – Symphony No. 4 – Mvt.4

Vienna Philharmonic Orchestra conduzida por Valery Gergiev. Suntory Hall, Tokyo,2004

Valery Abisalovich Gergiev (Moscou, 2 de maio de 1953) é um maestro russo. Gergiev é diretor artístico e geral do Teatro Mariinski, de São Petersburgo. É também o atual regente titular da Orquestra Sinfônica de Londres e da Orquestra Filarmônica de Roterdã – cargo que detém até 2008 -, além de ser o principal regente associado da Metropolitan Opera.

 

No dia 21 de Agosto de 2008, na cidade de Tshinvali, Valery Gergiev deu concerto de musica clássica em apoio aos separatistas da Ossétia do Sul. A orquestra tocava as musicas de Tchaikovsky e Shostakovitch. Ao lado, numa distância de apenas duzentos metros do palco, vários cidadãos georgianos estavam encarceradas nas gaiolas, tendo como única culpa a sua origem étnica.

Barenboim no Obelisco

Concerto gratuito de tangos sinfônicos no obelisco em BUENOS AIRES sob a direção do maestro argentino Daniel Barenboim há 31.12.06.

Nos abismos de Jünger

Em texto inédito em português, o crítico George Steiner analisa Nos Penhascos de Mármore, romance de tons autobiográficos do polêmico autor alemão, recém-lançado no Brasil

Tempestades de Aço, de Ernst Jünger, foi publicado em 1920 e trouxe fama imediata ao seu autor. Continua a ser a mais notável obra de escrita oriunda da Primeira Guerra Mundial. Passionate Prodigality, de Guy Chapman, é um gesto mais penetrante, inteiriço, de percepção humana; o alcance político de Le Feu, de Barbusse, é maior.

Mas Ernst Jünger chegou mais perto do que qualquer outro escritor, mais até do que os poetas, de imprimir na língua o molde da guerra total. Em parte, é uma questão de técnica: as frases lapidares, tão distintas da sinuosa hesitação da prosa literária e filosófica alemã normal, as símiles violentas, o impulso da turbulência vívida e descontrolada, em detrimento da abstração. Em parte, provém da determinação de Jünger de tornar o ofício da escrita uma contraparte do ofício do combate.

A guerra e o virtuosismo de Jünger no campo da guerra – sete vezes ferido, comandante de pelotão, Jünger recebeu a mais alta insígnia militar em setembro de 1918 – tornaram-se o núcleo visionário, a suprema pedra de toque da totalidade da sua obra. O inferno caótico de Somme e de Langemarck se torna mais do que uma lembrança causticante ou um exemplo de vida enlouquecida.

A tempestade de fogo da artilharia pesada, a paisagem lunar de crateras e clarões, o frenesi sonâmbulo do combate corpo a corpo pareciam a Jünger condensar certas verdades e mistérios essenciais no homem. Depois de uma batalha como aquelas, seria impossível haver paz, apenas um armistício.

Escrever ensaios, poemas ou romances como se a própria língua não tivesse passado pelos arames farpados e pelo ar envenenado parecia a Jünger algo semelhante a uma evasão romântica, uma tática burguesa numa época em que as amarras da civilização burguesa tinham sido fatalmente afrouxadas. Embora fosse uma parte inextricável da violência, a língua era, contudo, a última região segura de sobrevivência.

Para ler na íntegra clique aqui

Fonte: O Estadão/Caderno 2

Admirável ano-novo

Era comum, talvez ainda seja, que o infeliz plantado numa redação na véspera de Natal, com uma página somente esperando uma matéria dele para rodar, não resista ao título que, em temível concerto telepático, também vem à cabeça dos outros na mesma situação, e taque lá “Admirável Mundo Novo”, tirado, como sabemos, do livro de mesmo título de Aldous Huxley.

 

Aqui, fiz uma inovação, na esperança de que ela não ocorra também a mais de dez por cento dos aflitos. Boto “ano”, em vez de “mundo” porque é cada vez mais assim. O que era para acontecer somente daqui a décadas acontece amanhã e, descontada a crise, creio que certos setores, notadamente do mercado de eletrônicos, às vezes pisam no pé das novidades, para que elas não terminem embotando a capacidade de absorção ou compra do consumidor.

 

Quando eu entrei em jornal, encontrei vários colegas bem coroas, já a poucos anos da aposentadoria. Os muito mais velhos se lembravam de grandes jornalistas que escreviam seus artigos incendiários à caneta e a mais ousada inovação que adotavam era a caneta-tinteiro. Ríamos deles, mas a única novidade tecnológica que incomodava os jornalistas “modernos” era uma periódica troca de marcas de máquina.

 

De Underwood para Remington, quase um motim; de Remington para Olivetti, resistências tão severas que as duas marcas às vezes coexistiam nas redações. Aquela IBM de bolinha nunca passou das escrivaninhas de secretárias chiques. Aliás, ninguém mais sabe o que era a IBM de bolinha. Uma vez, há muitos muitos anos, quando chegando de volta dos Estados Unidos, falei sobre as máquinas de bolinha, fui tido na conta de mentiroso cínico. Outra vez, faz poucos dias, quis descrever uma máquina de bolinha a uma moça de 25 anos e ela não me chamou de mentiroso, só não entendeu nada e ficou com um ar de pena de mim.

 

Estava pensando em abordar doenças novas que nos ameaçam, mas aí pensei de novo e não achei essa conversa lá muito estimulante, para um dia de Natal. Só faço menção a uma delas porque é chique e esta coluna não vai correr o risco de deixar escapulir de seus leitores uma nova doença chique, para a qual já devem estar-se formando alguns especialistas.

 

A doença a gente já conhece, novidade é o nome: ortorexia. Não é sinônimo, é só parenta da Ano. Ortorexia vem a ser, mais ou menos, a mania exagerada de ingerir a comida correta, segundo seu conteúdo nutritivo, a hora em que é ingerida, mastigação, o ambiente, o estado de espírito, a origem dos alimentos e, enfim, os inesgotáveis problemas que podem acometer o ortoréxico, que no futuro, dizem-me cá, deverá andar com uma expécie de pochete ortoréxica, contendo o mínimo essencial para o laborioso ato de comer: balança, analisador de teor de acidez, detector de agrotóxicos, detector de hormônios e quem mais ousa adivinhar o quê.

 

Talvez uma empresa lance o Eat-Rite, sucesso absoluto de vendas, até que a Apple anuncie o iPot e todo dia pinte um modelo novo, vai ver um que possa até almoçar pelo dono, se faltar tempo, em época na qual ele é tão escasso e, assim mesmo ou por isso mesmo, gastam-se fortunas para matá-lo.

 

Imagino que pensem que vai chiste nisto, mas não vai. Por exemplo, talvez a “degola” demore mais alguns anos, mas o casamento, segundo o conhecemos, mesmo na pluralidade de formas com que vem tentando adaptar-se, vai acabar, já deve ter começado a acabar. Isto porque muitos casamentos, suponho que a maioria deles em nossa sociedade e em diversas outras, se apóiam, ainda que por vício, em conceitos como a fidelidade, a sinceridade ou lealdade e a confiança.

 

Tudo isso está indo rapidamente para o beleléu, porque nenhuma dessas virtudes é integralmente observada por homens ou mulheres, pois que ninguém vira santo apenas porque casou. Se começar a haver sensores, como já existem e não são tão raros assim, que monitorem certos dados vitais, o(a) ciumento(a), ambos vão saber, através de um programinha esperto que processe esses dados, o que foi que ela sentiu quando dançou com fulaninho e o que foi que se passou nele, na hora da bitoquinha em sicraninha. Palavras de arrependimento, que terrível engano, não foi nada disso que você pensou – vai tudo isso para o espaço, ciência é ciência.

 

Em setores, digamos, acessórios, existe de tudo, grande parte já à venda no Japão, muitas vezes com versões diversas. Celular com localizador é manjadíssimo. O moço ou a moça no motel e o corno ou a corna sabendo de tudo, ou até assistindo, porque uma hora destas aparece celular com filmadora de controle remoto. Chips minúsculos emitindo sinais para localização, embutidos no cós da cueca ou da calcinha.

 

Ou seja, periga surgir próspero negócio para quem precisa faturar uns extras no escritório: aluguel de estacionamento de cueca ou calcinha. Tokomoyo chega ao escritório, sabe que está de cueca grampeada, paga a Toshito para trocarem de cueca no fim de tarde, porque Tokomoyo vai finalmente traçar Fushita, e Fushita, que também finge que não sabe que está de calcinha grampeada, já fez o mesmo acerto com Okomoko, porque Pushita também está muito a fim de traçar Tokomoyo.

 

E, assim, as horas extras de um são extras diversas das de outro. Imaginem que mercado, imaginem que revolução de costumes. Claro, haverá quem resista e surgirão inúmeras tribos urbanas monógamas e fiéis, mas logo virarão exóticas e objetos da cobiça dos grampeados. Vencer a virtude de uma desgrampeada deverá render um prazer sedutor meio pervertido, meio Ligações Perigosas.

 

E pegar um desgrampeado há se ser façanha igualmente valorizada. Mas, com a localização e a espionagem de todos por todo mundo, acabará de vez a privacidade, não só de atos, como também de emoções muito íntimas, desconhecidas, talvez, do próprio portador. Continuo preferindo não estar aqui nessa época.

 

João Ubaldo Ribeiro

 

Opinião

Falta destravar o investimento

 

A redistribuição de verbas pode aumentar a eficiência dos programas de investimento em 2009. A solução eficaz e definitiva, porém, só pode ser a elevação dos padrões de toda a administração federal.

 

FOLHA DE SÃO PAULO

Balanço

2008 – O ano que não terminou

 

 

A crise financeira global que estourou em 2008 vai entrar por 2009, apesar de o presidente Lula ter dito que, se lá fora ela era tsunami, aqui (no Brasil) não passaria de uma marolinha. Entre os fatos marcantes do ano estão a recessão que se espalha pelo mundo e a tentativa de nações ricas e emergentes de reerguer suas economias. No Brasil, não é diferente. O ano de 2008 também foi de renovação de esperanças com a eleição do primeiro negro para a Casa Branca. A decepção fica por conta da epidemia de dengue e dos fichas-sujas que continuam na cena política.

 

Bolsa tem o pior resultado em 36 anos

 

 

A Bolsa de São Paulo perdeu 41,2% no ano, o pior resultado desde 1972. Já o dólar subiu 31,34%, a primeira alta desde 2002. O BC alterou regras e liberou R$ 40 bi para os bancos.

 

Novidades

Ano novo, língua nova

 

O trema caiu! Acentos sumiram! É com ou sem hífen? O Estado de Minas, que adota a nova reforma ortográfica a partir de amanhã, traz um guia para você ficar por dentro de todas as mudanças que vão ocorrer na grafia da língua portuguesa.

 

EXEMPLO:

 

“Eles veem que o voo atrasou, mas continuam tranquilos”. Parece errado,porém a grafia será assim, a partir de amanhã.

 

Guerra suja

Israel ignora pressões do mundo e descarta trégua

 

 

Pressionado pelo alto escalão do Exército de Israel e pela comunidade internacional, o premier israelense, Ehud Olmert, rejeitou ontem a possibilidade de uma trégua imedita com o grupo radical palestino Hamas e manteve o bombardeio à Faixa de Gaza. Após quatro dias de conflito, o número de mortos chegou a 383 do lado palestino , e quatro do israelense. Olmert disse que a operasção militar está apenas na primeira fase e vai continuar. O governo estuda convocar mais 2.500 reservistas, o que aumentaria para 9 mil o número de soldados de prontidão na fonteira com Gaza. Hoje, o Gabinete israelense se reúne para discutir se decreta uma trégua, como foi pedido por França e Reino Unido, ou se ordena uma invasão por terra do território. A Marinha de Israel impediu ontem um barco com pacifistas de levar ajuda a Gaza. A embarcação com ajuda humanitária foi abalroada por um navio de guerra de Israel.

 

Manchetes de hoje_31.dez.08

FOLHA DE SÃO PAULO – Bovespa tem pior ano desde 1972; dólar se valoriza 31% em 2008

O GLOBO – Bolsa tem o pior resultado em 36 anos

JORNAL DO COMMERCIO – Renan deve comandar o PMDB no Senado

ZERO HORA – Nasce a nova ortografia

ESTADO DE MINAS – MP da Filantropia continua valendo

ESTADO DE SÂO PAULO – Perda da bolsa chega a 41%; dólar lidera rendimentos