Poesias

MEDO

Ievguiéni  Ievtuchenko

 

O medo está morrendo na Rússia,

Como os fantasmas dos anos passados;

De vez em quando, no adro das igrejas,

Ainda pede esmola qual mendiga.

 

Mas eu me lembro quando ele era forte

E sua falsidade triunfava.

Em cada andar dos prédios se esgueirava

Sua sombra, em toda parte penetrando.

 

Tornava a todos nós obedientes;

Nas coisas todas punha o seu selo;

Fazia-nos gritar quando era a hora

De calar; e calar na vez do grito.

 

Isso tudo, hoje em dia, está distante.

Estranho hoje é lembrar como temíamos,

Em segredo, que nos denunciassem,

Que viessem bater à nossa porta.

 

E o medo de falar com um estrangeiro?

E o medo de falar com sua mulher?

E o medo ilimitado de ficar

Sozinho e em silêncio em meio à praça?

 

Ninguém temia andar no nevoeiro,

Nem enfrentar as balas na batalha.

Mas tínhamos o medo, tão frequente

E mortal, de falar conosco mesmos.

 

[…]

 

Eu queria que o medo que tivéssemos

Fosse o de condenar sem julgamento,

De degradar ideias com mentiras

E, com mentiras, exaltar pessoas,

 

O medo de ficar indiferente

Quando alguém sente dor, é perseguido,

o medo de não sermos destemidos

Quando pintamos ou quando escrevemos.

TROVAS BURLESCAS

Publicada no livro “Trovas Burlescas” em 1859, a sátira de Luís Gama está mais atual do que nunca descrevendo políticos, ministros, juízes e parlamentares. Confira:

“Espertos maganões de mão ligeira/ Emproados juízes da trapaça/ E outros que de honrados têm fumaça,/ Mas que são refinados agiotas

Se luzidos ministros. d’alta escolha., / Com jeito, também mascam grossa rolha;/ E clamando que são independentes /Em segredo recebem bons presentes”

“Se a Justiça, por ter olhos vendados,/ É vendida por certos magistrados,/Que o pudor aferrando na gaveta,/ Sustentam que o Direito é pura peita” 

“Se a Lei Fundamental – Constipação, / Faz papel de falaz camaleão/ E surgindo no tempo de eleições/ Aos patetas ilude, aos tolerões” 

“Se não mente o rifão já mui sabido/ ‘Ladrão que muito furta é protegido’/ É que o sábio, no Brasil, só quer lambança/ Onde possa empantufar a larga pança”

 

Jorge Wanderley

TEMA DA ROSA – l

Parecia uma rosa madrugando

Aquela rosa ali, naquele dia.

Era quando em redor amanhecia,

Porém sem Lugar-Onde ou Tempo-Quando,

Estava eterna e eterna parecia.

Não se sabia a luz que a estava olhando,

Ou se ela olhava a luz desabrochando,

Nem se era dela que esta luz surgia.

Nada movia em torno, mas da haste

Parecia vibrar, tensa e nervosa,

A onda de um acorde num segundo

Sonhando em rubro e alheio a seu engaste,

Que era a história das rosas numa rosa,

A rosa em si, dentro de si, no mundo.

Alfred de Musset

Tristeza



Eu perdi minha vida e o alento,
E os amigos, e a intrepidez,
E até mesmo aquela altivez
Que me fez crer no meu talento.

Vi na Verdade, certa vez,
A amiga do meu pensamento;
Mas, ao senti-la, num momento
O seu encanto se desfez.

Entretanto, ela é eterna, e aqueles
Que a desprezaram – pobres deles! –
Ignoraram tudo talvez.

Por ela Deus se manifesta.
O único bem que ainda me resta
É ter chorado uma ou outra vez.


(Tradução Guilherme de Almeida)

Antero de Quental

NOTURNO

 

Espírito que passas, quando o vento

 

Adormece no mar e surge a Lua,

 

Filho esquivo da noite que flutua,

 

Tu só entendes bem o meu tormento…

 

 

 

Como um canto longínquo – triste e lento-

 

Que voga e sutilmente se insinua,

 

Sobre o meu coração que tumultua,

 

Tu vestes pouco a pouco o esquecimento…

 

 

 

A ti confio o sonho em que me leva

 

Um instinto de luz, rompendo a treva,

 

Buscando. entre visões, o eterno Bem.

 

 

 

E tu entendes o meu mal sem nome,

 

A febre de Ideal, que me consome,

 

Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!

 

Pablo Neruda

É PRECISO AGIR

 

Pois bem, chegaram outros:
exímios, medidores, chilenos meditativos
que fizeram casas úmidas em que me criei
e levantaram a bandeira chilena
naquele frio para que gelasse,
naquele vento para que vivesse,
em plena chuva para que chorasse.
Encheu-se o mundo de carabineiros,
apareceram as ferrarias,
os guarda-chuvas
foram as novas aves regionais:
meu pai deu-me uma capa
do seu invicto poncho de Castela
e até chegaram livros
à Fronteira, como se chamou
aquele capítulo que não escrevi
mas escreveram para mim.

Os araucanos tornaram-se raiz!
Foram lhes tirando folhas
até que viraram só esqueleto
de raça ou árvore lá destituída,
e não foi tanto o sofrimento antigo
embora lutassem vertiginosamente,
como pedras, como sacos, como anjos,
e eis que agora eles, os honorários,
sentiram que o chão lhes faltava,
a terra lhes fugia aos pés:
já havia reinado o sangue em Arauco,
chegou o reino do roubo
e éramos nós os ladrões.

Perdão se quando quero /contar minha vida
é terra o que conto.
Esta é a terra.
Cresce em teu sangue
e cresces.
Se se apaga em teu sangue
te apagas.

 

Augusto dos Anjos

O CONDENADO
Augusto dos Anjos

 


           “Folga a Justiça e geme a natureza”
                                      Bocage

Alma feita somente de granito,
Condenada a sofrer cruel tortura
Pela rua sombria d’amargura
– Ei-lo que passa – réprobo maldito.

Olhar ao chão cravado e sempre fito,
Parece contemplar a sepultura
Das suas ilusões que a desventura
Desfez em pó no hórrido delito.

E, à cruz da expiação subindo mudo,
A vida a lhe fugir já sente prestes
Quando ao golpe do algoz, calou-se tudo.

O mundo é um sepulcro de tristeza.
Ali, por entre matas de ciprestes,
Folga a justiça e geme a natureza.

 

Paulo Leminsk

Incenso fosse música

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Carlos Drummond de Andrade

O outro carnaval

Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,
que ninguém percebe, e todos os dias
exibo na passarela sem espectadores?

Carlos Drummond de Andrade

“Um Homem e o seu Carnaval”

  (do livro Brejo das Almas, 1934)
“Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.”