Poesias

Guy Maupassant

O CAÇADOR DE PÁSSAROS

 

Por planícies e montanhas em

folhas de flores para caçar na primavera, ela

deixa caçar o amor do menino. Ele

sempre enche seu aviário,

porque ele é um caçador habilidoso.

 

Quando a noite se torna madrugadora,

tende loops, ou a massa

dispersa a liga traiçoeira;

então, sua impressão digital

revela-se com aveia ou milheto.

 

Lurk atrás das sebes verdes

ou ao longo dos riachos.

Está escondido na floresta de abetos

para não despertar dúvidas

nos pássaros inquietos.

 

Entre os lírios e o alecrim,

ou sob o quadro verde,

a criança habilidosa tende a rede,

e logo

o passarinho, o lincoln e o goldfinch vêm no rebanho .

 

Mais de uma vez com um jonquil

ou algumas vime montou um laço,

e então espiava o pássaro

que vem dar a um banquetazo

a isca que ele colocou o malandro.

 

Alegre, inexperiente, maliciosa,

o pássaro se aproxima do engano,

olha com olhos de encantamento,

é animado e, em seguida, por seu dano, ele

gula ganancioso e é preso.

 

O caçador incansável

sempre enche seu aviário,

e longe do prado e da flor

da montanha e do ribera verde

que mordeu a isca do amor.

 

 

Tradução: Leandro Calle

 

Jacques Prévert

O Meteoro

Pelas grades do bloco penitenciário
uma laranja
passa como um raio
e cai como uma pedra
dentro do sanitário
E o prisioneiro
todo lambuzado de merda
resplandece
todo iluminado de alegria
Ela não me esqueceu
Ela pensa sempre em mim ainda.

 

Tradução de Adriano Scandolara

Stéphane Mallarmé (1887)

Dama

 

sem tanto ardor embora ainda flamante

A rosa que cruel ou lacerada e lassa

Se deveste do alvor que a púpura deslaça

Para em sua carne ouvir o choro do diamante

 

Sim sem crises de orvalho antes em doce alento

Nem brisa o fragor do céu leve ao fracasso

Com ciúme de criar não sei bem qual espaço

No simples dia o dia real do sentimento,

 

Não te ocorre, talvez, que a cada ano que passa

Quando em tua fronte se alça o encanto ressurreto

Basta-me um dom qualquer natural de tua graça

 

Como na alcova o cintilar de um leque inquieto

A reviver do pouco de emoção que grassa

Todo o nosso nativo e monótono afeto.

 

 

 

Alfred de Musset

Canção (1840)

 

Quando a vaidosa Esperança

 

Acotovela-nos partindo,

 

Depois, num vôo rápido se lança,

 

E se volta sorrindo;

 

 Aonde vai o homem? Aonde seu coração o encaminha.

 

A andorinha segue o zéfiro – vento do ocidente,

 

E é menos ligeira a andorinha

 

Que o homem seguindo seu desejo somente.

 

 Ah! Fugidia e cheia de ardil,

 

Sabes ao menos a tua direção?

 

É mesmo preciso que o Destino ancião

 

Tenha uma amante tão juvenil!

 

 

 

Arthur Rimbaud

Canção da Torre Mais Alta

 


Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora.

Eu disse a mim: cessa,
Que eu não te veja:
Nenhuma promessa
De rara beleza.
E vá sem martírio
Ao doce exílio.

Foi tão longa a espera
Que eu não olvido.
O terror, fera,
Aos céus dedico.
E uma sede estranha
Corrói-me as entranhas.

Assim os Prados
Vastos, floridos
De mirra e nardo
Vão esquecidos
Na viagem tosca
De cem feias moscas.

Ah! A viuvagem
Sem quem as ame
Só têm a imagem
Da Notre-Dame!
Será a prece pia
À Virgem Maria?

Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora!
Tradução:  Claudio Daniel

Charles Baudelaire

A uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

 

Tradução e notas de Guilherme de Almeida

Victor Hugo

Fábula ou história

Um dia, magro e sentindo um real desfastio,
Um macaco com a pele de um tigre se vestiu.
O tigre fora malvado, ele tornou-se atroz
Ele tinha assumido o direito de ser feroz.
Arreganhava os dentes, gritando: eu serei
O herói dos matagais, da noite o temível rei!
Como malfeitor dos bosques, emboscado nos espinhos,
De horror, morte e rapinas, escureceu os caminhos,
Degolou os viajantes e devastou a floresta,
Fez tudo o que faz aquela pele funesta.
Vivia no seu antro, no meio da voragem.
Todos, vendo-lhe a pele, criam na personagem.
Gritava e rugia como as feras danadas:
Olhem, a minha caverna está cheia de ossadas;
Olhem para mim, sou um tigre! Tudo treme,
Diante de mim, tudo recua e emigra; tudo freme!
Temiam-no os animais, fugindo com grandes passos.
Um domador apareceu e tomando-o nos braços,
Rasgou-lhe a pele, como se rasga um farrapo,
E, pondo a nu o herói, disse: Não passas de um macaco!

 

 Tradução: José Lino Grünewald

Paul Valéry

A adormecida 

[à Lucien Fabre]

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,

Alma por doce máscara aspirando a flor?

De que alimentos vãos teu cândido calor

Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,

Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,

Quando de um pleno sono a onda grave e estendida

Conspira sobre o seio de tal inimiga

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.

De tais dons cumulou-se esse temível sono,

Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,

Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,

Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

Paul Valéry, em “Charmes”. (1922).. [tradução Augusto de Campos]. in: BARBOSA, João Alexandre. A comédia intelectual de Paul Valéry. São Paulo: Iluminuras, 2007. Op. cit., p. 76.

John Donne (1572 – 1631)

Oh, Morte, não te orgulhes, pois ruim
Como dizem não és, medonha e forte;
Quem pensas que abateste, pobre Morte,
Não morre; nem matar podes a mim.
Se o sono, o teu retrato, agrada assim,
Contigo fluirá melhor a sorte;
E o bom, ao conhecer o teu transporte,
Descansa o corpo e se liberta enfim.
Serva de reis, destino, acasos e ânsia,
À droga, à peste e à guerra te associas;
E adormecem-nos ópios e magias
Mais que teu golpe. Então, por que a jactância?
Um breve sono a vida eterna traz,
E, vai-se a morte. Morte, morrerás.

 

Trad. Paulo Vizioli

Paul Fleming

MEDITAÇÃO SOBRE O TEMPO

Vives no Tempo sem saber o que é o Tempo;
Ignoras de onde vens e no que te deténs.
Sabes apenas que num Tempo foste feito
E que num outro Tempo ainda serás desfeito.
Mas o que foi o Tempo que te trouxe incluso?
E o que há de ser aquele que te faz sem uso?
O Tempo é sim e não, o homem se multiplica,
Mas o que é este Sim-e-Não ninguém explica.
O Tempo morre em si e a si mesmo renasce.
O de que tu e eu viemos, de nós mesmos nasce.
O homem está no Tempo e o Tempo está no homem,
Mas o Tempo resiste enquanto o homem some.
O Tempo é o que és e és o que é o Tempo,
Embora tenhas menos do que o Tempo tem.
Ah, se esse outro Tempo, sem Tempo, chegasse
E a nós, de nosso Tempo, esse Tempo arrancasse,
E de nós mesmos, nós, para sermos também
Como esse Tempo, que nenhum Tempo contém.

Trad. Augusto de Campos.